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Relatório
do Presidente: ICANN - O caso para reforma
24 de fevereiro de 2002
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À comunidade da Internet:
Ocupo agora o cargo de Presidente da ICANN há cerca de um ano. Durante
esse período, falei com mais pessoas do que seria capaz de contar sobre
ICANN, suas conquistas e deficiências, e sobre seu futuro. Também tive a
responsabilidade de supervisionar as operações do dia-a-dia da ICANN, e tomar
a difícil decisão sobre o que fazer e como fazê-lo em um ambiente com uma
estrutura incompleta e fundos insuficientes. No momento, sinto-me
suficientemente à vontade com o meu grau de conhecimento para querer
compartilhar meus pontos de vista com o Conselho Administrativo e com a
comunidade. Em anexo a esta nota há uma cópia do relatório que apresentei ao
Conselho de Diretores da ICANN por ocasião de seu encontro em Washington,
D.C. em 23 e 24 de fevereiro de 2002.
A missão atribuída a ICANN - criar um processo efetivo do setor privado
para desenvolver políticas e gerenciar as atividades administrativas e
normativas dos sistemas de alocação de nomes e endereços na Internet - foi
incrivelmente ambiciosa. Até então, jamais se havia tentado fazer algo
parecido. ICANN deveria servir como uma alternativa ao modelo tradicional,
pré-Internet de uma organização multinacional criada por meio de um tratado.
A esperança era que uma entidade do setor privado seria como a própria
Internet: mais eficiente - mais ágil - mais capaz de reagir prontamente a um
ambiente em rápida evolução e, ao mesmo tempo, mais aberta a uma participação
significativa de mais pessoas interessadas, desenvolvendo políticas através
de um consenso da base para o topo. Esperava-se também que criar esse tipo de
entidade e torná-la funcional seria mais rápido do que incumbir uma entidade
governamental multinacional.
Agora já se passaram mais de três anos desde a criação da ICANN, e existem
algumas conquistas reais: a introdução de um mercado competitivo de
registradores, a Política Uniforme para Resolução de Disputas, a criação de
sete novos Domínios de Alto Nível globais. Porém, apesar deste progresso, nem
todas as expectativas originais foram concretizadas. ICANN ainda não está
completamente organizada, e com certeza ainda não tem condições de arcar com
toda a responsabilidade do gerenciamento e coordenação globais do DNS. ICANN
também ainda não comprovou ser eficiente, ágil e rápida para reagir a
problemas. ICANN está sobrecarregada com o processo, e ao mesmo tempo seu
orçamento e seu quadro de funcionários são insuficientes. Por estas e outras
razões mais fundamentais, em sua forma atual ICANN não se transformou no
condutor efetivo dos sistemas globais de atribuição de nomes e alocação de
endereços na Internet, conforme havia sido idealizado por seus fundadores. E,
talvez o que seja o mais importante, a passagem do tempo não aumentou a
confiança de que ela é capaz de concretizar suas expectativas e esperanças
originais.
Cheguei à conclusão de que o conceito original de uma entidade exclusiva
do setor privado, baseada em consenso e harmonia, provou ser impraticável. O
fato de muitos daqueles que criticam a coordenação global ainda não estarem
dispostos a participar de forma plena e efetiva no processo da ICANN é uma
forte evidência disso. Porém eu também estou convencido de que, para um
recurso tão mutável e dinâmico quanto a Internet, a abordagem governamental
tradicional como alternativa para ICANN continua sendo uma má idéia. A Internet
precisa de uma coordenação global efetiva, cuidadosa e sensível em algumas
áreas limitadas, oferecendo um amplo
espaço para a inovação e mudança que fazem dela este recurso único, tão útil
e valioso.
ICANN precisa de uma reforma estrutural significativa
Concluí que ICANN precisa de uma reforma: uma reforma estrutural profunda
e significativa, baseada em uma compreensão lúcida dos sucessos e fracassos
dos três últimos anos. Para que ICANN prossiga, esta reforma deve substituir
os fundamentos institucionais instáveis da ICANN por uma parceria efetiva
entre os setores públicos e privados, enraizada no setor privado, mas com a
retaguarda ativa e a participação dos governos nacionais.
Em resumo, ICANN está numa encruzilhada. O processo de transferir funções
do Governo dos EUA para ICANN está paralisado. Por várias razões descritas
neste documento , acredito que a capacidade da ICANN progredir está bloqueada
por sua fragilidade estrutural. Falando sem rodeios: se continuar neste
curso, ICANN não poderá cumprir a missão que lhe foi atribuída. É necessário
um novo caminho - uma estrutura nova e reformada.
Neste contexto, faz sentido questionar se não seria melhor substituir
ICANN por alguma coisa completamente diferente. Não acredito que exista uma
alternativa melhor do que reformar ICANN. Se a experiência da ICANN, um
autogerenciamento pelo setor privado, não funciona, a alternativa com certeza
será alguma forma de organização governamental multinacional. Em minha
opinião, essa ainda é uma opção não-atraente, por todas as razões que foram
apresentadas de maneira tão veemente três anos atrás. As Nações Unidas, a
Organização Mundial do Comércio e a União Internacional das Telecomunicações
são muito complexas e operam como organizações efetivas dentro de seus
respectivos setores; no entanto, cada modelo tem deficiências profundas e
evidentes, que seriam uma alternativa pior para o ambiente da Internet do que
seria uma ICANN reformada.
Uma ICANN reformada pode ser bem-sucedida
Baseado na experiência dos três últimos anos e na minha própria
perspectiva da ICANN ao longo do último ano, estou convicto de que uma ICANN
reformulada pode ter sucesso - se nos voltarmos novamente para nossa missão
principal, reformarmos nossos fundamentos institucionais para cumprir esta
missão, e eliminarmos as distrações de assuntos e pautas periféricos.
Para ser claro: a missão da ICANN é gerenciar e coordenar efetivamente
aqueles poucos elementos de nível mais alto dos sistemas de alocação de nomes
e endereços na internet, que exigem ou se beneficiam da administração e
coordenação global, e ao mesmo tempo abster-se de ações que possam interferir
com a criatividade e inovação que fizeram da Internet um recurso tão
dinâmico. A missão da ICANN é a condução e a estabilidade operacional, e não
a defesa de sua existência ou a preservação do status quo.
Dito isso, é essencial definir inequivocamente o que está fora do escopo da ICANN. A missão básica da ICANN não inclui a delegação para novas
instituições de democracia global, nem conseguir a representação
matematicamente eqüitativa de todos os indivíduos e organizações afetadas,
nem regulamentar o contudo ou resolver os problemas da divisão digital, nem
corporificar algum modelo idealizado (e nunca antes concretizado) de
processos ou procedimentos. Por mais importantes que sejam estes ideais, eles
devem ser tratados por outras organizações mais adequadas. Infelizmente, nós
permitimos que os defensores desses e outros objetivos não-essenciais
desviassem ICANN daquilo que deve ser o foco sobre sua missão principal. Estes desvios têm sido e continuarão sendo
um impedimento significativo para atingir a missão fundamental da ICANN, a
menos que empreendamos uma reforma drástica na estrutura e nas operações da ICANN, e reorientemos nossa atenção sobre sua missão limitada, porém
importante.
Os valores fundamentais devem ser preservados
Os valores fundamentais da experiência da ICANN - e parte integrante de
seu sucesso até o momento - têm sido a abertura e a ampla participação.
Acredito fortemente nestes valores, e pretendo fortalecê-los em uma ICANN
reformada. ICANN pode e deve fazer muito melhor para obter transparência,
possibilitar uma participação significativa, e expandir-se a fim de envolver
a diversidade global da Internet.
É necessária uma nova parceria entre os setores público e
privado
Agora estou convencido de que o desejo original de evitar o total controle
governamental das funções de IANA causou uma reação exagerada - a escolha de
um modelo totalmente privado. Com três anos de experiência, está claro que
este modelo simplesmente não é praticável. Não é praticável porque deixa
ICANN isolada das instituições do mundo real - os governos - cuja retaguarda
e apoio são essenciais para que qualquer entidade efetiva de coordenação
cumpra as tarefas que lhe foram atribuídas. No momento, ICANN tem um comitê
consultivo para canalizar as contribuições do governo, porém este mecanismo
não integrou de modo eficiente os pontos de vista ou a influência dos
governos - precisamos encontrar um caminho melhor.
Embora muitos na comunidade tradicional da Internet reajam ardorosamente à
mera menção da palavra ?governo?, é simplesmente irrealista acreditar que a
coordenação global do DNS pode ter sucesso sem o envolvimento mais ativo dos
governos. Na verdade, há décadas um dos princípios fundamentais e inabaláveis
da Internet tem sido que os gerentes técnicos devem ficar naquilo que
conhecem e fazem melhor, e deixar a cargo de outras organizações aquilo que
estas fazem melhor. Os governos desempenham um papel exclusivo ao representarem
os interesses do grande público de suas populações. Até o momento, as atuais
estruturas da ICANN não conquistaram a atenção, compromisso e apoio dos
governos na medida necessária.
O que é preciso neste estágio, caso ICANN deva cumprir sua missão, é uma solução nem totalmente privada, nem
inteiramente governamental, e sim uma parceria bem equilibrada entre os
setores público e privado. O funcionamento estável dos sistemas de atribuição
de nomes e endereços na Internet em uma importância demasiadamente grande
para as economias nacionais e outros objetivos nacionais para que os governos
o deixem à margem. A experiência comprovou que a influência, autoridade e
estreita cooperação dos governos são essenciais para que ICANN cumpra sua
missão. Em razão das vantagens significativas representadas por uma
organização vigorosa do setor privado, contudo, devemos procurar um terreno
intermediário sólido e eficiente - a parceria certa entre o público e o
privado - que irá incorporar o melhor das duas opções extremas.
O Relatório anexado descreve em mais detalhes os motivos pelos quais ICANN
não pode alcançar seu objetivo nos moldes atuais, e por que é necessária uma
reforma profunda. O relatório também apresenta uma série de propostas para
reforma que, acredito, permitirão que ICANN e a comunidade da Internet
cumpram sua missão original. Em resumo, estas propostas incluem:
A. Reforma do Conselho Administrativo da ICANN
1. Conselho de Curadores
com 15 membros
a) 10 Curadores At Large
(Gerais)
(1) Cinco indicados por
governos e confirmados pelo Conselho de Curadores
(2) Cinco indicados por
um Comitê de Indicação, através de um processo aberto, e confirmados pelo
Conselho de Curadores
b) Cinco Curadores Ex
Officio
(1) Presidentes (ou
designados) de três Comitês de Políticas e do Comitê Consultivo para Assuntos
Técnicos (ver abaixo)
(2) CEO
2. O delegado da Diretoria
de Arquitetura da Internet e o Presidente do Comitê Consultivo para Assuntos
governamentais atuam como elos de ligação não-votantes com o Conselho de Curadores
B. Reforma da estrutura e processo do desenvolvimento de políticas da ICANN
1. Três Conselhos de
Política para oferecer assessoria ao Conselho de Curadores
a) Conselho de Política
para Endereços e Atribuição de Números
b) Conselho de Política
para Nomes de TLDs Genéricos
c) Conselho de Política
para Nomes de TLDs Geográficos
d) Administrados por
Comitês de Direção, cerca de metade dos quais composta por representantes ex
officio das categorias de entidades relevantes (registros, registradores,
etc.) e metade por pessoas indicadas pelo Comitê de Indicação e confirmadas
pelo Conselho de Curadores
e) Comitê de Indicação
composto por um presidente não-votante (selecionado pelo CEO após ampla
consulta), três membros do Conselho de Curadores cujos mandatos não estejam
expirando, e quatro outras pessoas indicadas pelo Conselho de Curadores após
consulta e sugestões da comunidade.
2. Dois Comitês Consultivos
Permanentes
a) Comitê Consultivo para
Assuntos Técnicos
(1) Composto por membros ex
officio (designados por IAB, RIRs, operadores de servidores de nomes-raiz
e registros/registradores de nomes) e três outras pessoas indicadas pelo
Comitê de Indicação e confirmadas pelo Conselho de Curadores
b) Comitê Consultivo para
Assuntos Governamentais
3. Dois outros Comitês
Permanentes
a) Comitê de Segurança
(indicado pelo Conselho de Curadores)
b) Comitê para Operações do
Sistema de Servidores-Raiz (operadores de servidores-raiz e outras pessoas
convidadas pelo Comitê)
4. Participação em
Conselhos por fóruns auto-organizados (indivíduos e/ou entidades com
interesses comuns), potencialmente incluindo uma organização At Large (Geral)
para indivíduos
C. Transparência e confiabilidade
1. Ombudsman
a) Pessoa de credenciais
inatacáveis, responsável por administrar os comentários do público e outras
participações do público
b) Responsável por receber
e processar pedidos de reconsideração e outras queixas e disputas; com acesso
a todas as informações necessárias para avaliar as mesmas
c) Responsável por fazer
recomendações ao Conselho de Curadores em relação a queixas, disputas e
pedidos de reconsideração; todas essas recomendações serão publicadas no site da ICANN.
d) Provido de uma equipe de
apoio e dos outros recursos necessários para desempenhar com eficiência as
suas responsabilidades.
2. Gerente de Participação
Pública
a) Responsável por
gerenciar o processo de comentário e participação do público junto a ICANN em
todos os assuntos importantes. Irá solicitar, receber e reportar ao Conselho
Curador todas as contribuições do público sobre os assuntos que foram
submetidos à análise pública.
b) Responsável por
administrar todos os fóruns públicos, listas públicas de e-mail, etc., da ICANN. Provido do acesso eletrônico necessário para publicar conclusões e
recomendações, que estarão disponíveis ao público.
c) Provido de uma equipe de
apoio e dos outros recursos necessários para desempenhar com eficiência as
suas responsabilidades.
D. Financiamento
1. Os fundos (para pessoal,
operações gerais e necessidades adicionais, incluindo a remuneração de
operadores de servidores-raiz) precisam ser aumentados substancialmente,
ampliando-se as fontes de recursos.
2. Fundos provenientes
tanto de participantes governamentais quanto privados.
3. Fundos para incluir
tanto contribuições para funções essenciais quanto taxas por serviços.
Eu ofereço esta análise e estas recomendações com a esperança de estimular
a discussão e o debate públicos. Conforme explica mais detalhadamente o
relatório em anexo, acredito que ICANN precisa se submeter a uma reforma
significativa, caso queira ter sucesso em sua missão, e isso precisa
acontecer logo. Aguardo seus comentários e sugestões.
M. Stuart Lynn
Relatório
do Presidente: ICANN - O caso para reforma
23 de fevereiro de 2002
INTRODUÇÃO
ICANN é uma experiência audaciosa no gerenciamento de um recurso global
exclusivo. Através do gerenciamento
sensível do DNS, o objetivo é ajudar a conservar a Internet como um mecanismo
estável e efetivo para o comércio, comunicação, educação, medicina globais, e
outras áreas. Por ter sido idealizada como uma entidade exclusivamente
privada, e como tal não possui ferramentas coercitivas ou poderes
legislativos, ICANN iria executar essa missão unicamente através da
elaboração voluntária de políticas de consenso e a criação de acordos
bilaterais com os indivíduos ou organizações afetados. Não obstante os
desafios óbvios inerentes a esta abordagem, esperava-se que ICANN pudesse
desempenhar as tarefas de coordenação e gerenciamento necessárias com mais
rapidez e mais eficiência do que a única alternativa aparente - algum tipo de
entidade governamental multinacional.
Agora acumulamos três anos de experiência tentando promover uma transição
do controle por um único governo, através de um sistema mais ou menos
informal, para um sistema mais formal de coordenação global pelo setor
privado. Esse esforço procura reunir governos, pioneiros da Internet, a
comunidade técnica da Internet, operadores de infraestrutura e organizações
comerciais e sociais de todo o mundo - todos em uma única entidade, nascida
em meio a controvérsias e sem uma fonte garantida de fundos. Mais do que
isso, esperava-se que ICANN começasse a funcionar ao mesmo tempo em que
lutava para organizar e assegurar recursos. Vários participantes em potencial
ficaram muito desconfiados de outros interessados importantes, dificultando
assim um esforço conjunto. E tudo isso acontecia em meio a uma expansão
incrivelmente rápida da Internet, que passou de um meio basicamente dedicado
à ciência e pesquisa para um meio de comunicações global, imprescindível para
a vida comercial e social de centenas de milhões de habitantes do mundo.
Muitas pessoas, instituições e governos trabalharam muito para ICANN dar
certo, e houve algumas conquistas reais. Várias empresas privadas se
prontificaram a emprestar a ICANN fundos absolutamente críticos para sua fase
inicial (todos estes empréstimos já foram devolvidos). ICANN desenvolveu e
lançou um sistema de registradores concorrentes, implementou uma Política
Uniforme para Resolução de Disputas para tratar adequadamente disputas de
nomes de domínio, e introduziu sete novos TLDs globais. Do ponto de vista
operacional, ICANN desempenhou com eficiência as funções de IANA para
alocação de endereços e atribuição de números de protocolo, e assumiu a
operação direta de um dos servidores de nomes-raiz do DNS.
Além disso, um grande número de governos deu o apoio fundamental. O
governo dos Estados Unidos assistiu ICANN na obtenção de contratos com
NSI/VeriSign, um participante crítico, sendo o operador dos registros .com,
.net e .org. O governo da Austrália desempenhou um papel-chave ao fornecer
fundos para o quadro de pessoal e apoio do Comitê Consultivo para Assuntos
Governamentais, e ajudando a transferir a administração do seu ccTLD para
ICANN, através do primeiro arranjo contratual. Os governos do Japão, Canadá e
outros (inclusive a Comissão Européia) também tiveram papéis fundamentais, e
muitos governos ajudaram a hospedar as reuniões da ICANN.
Apesar de tudo isso, uma avaliação imparcial do desempenho da ICANN até o
momento teria de concluir que este ficou aquém das esperanças e expectativas.
Apesar de um processo normativo notavelmente aberto, não houve a participação
necessária. Participantes fundamentais, essenciais para ICANN desempenhar sua
missão de coordenação global - em especial a maioria dos operadores de
servidores de nomes-raiz, os registros de endereços e a maioria dos registros
de ccTLDs - ainda não formalizaram acordos com ICANN (embora estejamos perto
de um acordo com os registros de endereços e alguns dos operadores de
servidores de nomes-raiz). Desde o início, ICANN tem se debatido com fundos
insuficientes provenientes de uma base excessivamente pequena. A meu ver, ela
se sobrecarregou com uma atenção excessiva a processos e representação, e deixou
de se concentrar no cumprimento de sua missão básica. Mesmo a comunidade
comercial global, que agora depende da manutenção da estabilidade da Internet
para grande parte de suas operações, não participou amplamente do processo da ICANN - com algumas exceções corajosas e dignas de nota. Acredito que em
grande parte isso se deve porque muitos dos principais interessados vêem
ICANN mais como uma sociedade para debate do que uma entidade operacional
efetiva.
Assim tal como está, ICANN é, na
melhor das hipóteses, uma experiência incompleta. Para mim está claro que,
sem a participação constante e compromissada de todos os principais
organismos operacionais da Internet - incluindo essencialmente todos os
registros e registradores, ISPs e provedores de backbone importantes,
e a maioria dos usuários da Internet - no desenvolvimento das políticas
necessárias, agregada ao compromisso de cumprir as políticas estabelecidas,
este modelo específico do setor privado não será capaz de cumprir sua missão.
Particularmente, ICANN foi até onde podia ir sem a participação adicional
significativa e a retaguarda de governos nacionais. Se não houver um aumento
substancial nos esforços dos governos em apoiar a encorajar a continuidade do
desenvolvimento da abordagem pelo setor privado, eu não acredito que ICANN
será capaz de terminar a transição do controle do DNS e das funções
correspondentes da Internet pelo governo americano para um gerenciamento
global pelo setor privado.
Pelos motivos expostos abaixo, acredito que há pouco tempo para fazer as
reformas necessárias. Precisamos agir agora, ou em breve a experiência da ICANN irá ficar travada.
PORQUE A ABORDAGEM ATUAL NÃO
FUNCIONA
Basicamente, os principais problemas da ICANN podem ser divididos em três
categorias: falta de participação dos interessados mais importantes (entre
todos os tipos de operadores de infraestrutura, principais usuários e
governos nacionais); excesso de atenção sobre o processo; e falta de fundos
para oferecer serviços de qualidade.
1. Falta de participação das entidades relevantes. Os participantes
essenciais de uma ICANN efetiva são, sem uma ordem particular: (a) os
diversos provedores de infraestrutura da Internet, definidos de modo geral;
(b) principais usuários; (c) a comunidade técnica relevante e (d) os governos
nacionais.
Existem muitos outros interessados no gerenciamento do DNS, incluindo pelo
menos parte da comunidade mais ampla da Internet, e é importante assegurar
que todos os que têm um interesse legítimo na ICANN possam contribuir em seus
processos e decisões. Porém são estes participantes que são absolutamente
essenciais para ICANN realizar efetivamente o gerenciamento e a coordenação.
E sua participação precisa ser mais do que simbólica. Eles precisam ser
envolvidos ativamente; os que são parte da infraestrutura de operação de
nomes e endereços devem se dispor a seguir os resultados do processo
normativo da ICANN, devendo financiar o processo em níveis adequados para que
ICANN funcione devidamente.
Vale a pena descrever em mais detalhes por que alguns desses participantes
são essenciais.
ccTLDs: Um processo da ICANN sem a participação plena dos 243
ccTLDs não poderá atingir seus objetivos básicos de privatização e
internacionalização. Mais especificamente, ICANN não teria condições de
cumprir duas de suas principais responsabilidades: (i) assegurar a
interoperabilidade e estabilidade globais do DNS; e (ii) delegar - através de
um arcabouço de contratos apropriados - assuntos normativos não-técnicos a
organizações locais confiáveis, sempre que possível. Cada um desses objetivos
está contemplado no White Paper, e cada um definiu os esforços de
internacionalização da ICANN até o momento. Permitam-me aprofundar cada um
dos pontos.
Primeiramente, a interoperabilidade e estabilidade globais. Sem
relacionamentos estáveis e formais com os ccTLDs, o processo da ICANN não
seria capaz de garantir a preservação da interoperabilidade com a vasta
maioria das entradas no arquivo de zona de raiz do DNS. Ainda que a maioria
dos ccTLDs esteja agindo de maneira responsável, se não houver garantias
vinculativas que obriguem ao cumprimento das políticas e padrões apropriados,
não haverá uma garantia global de que os padrões correspondentes sejam
mantidos por todos, ou pelo menos não haveria nenhuma garantia confiável para
a maioria dos envolvidos. Portanto, do ponto de vista da interoperabilidade
global, é simplesmente impensável que uma grande parcela dos TLDs no arquivo
de zona de raiz possa operar independentemente da comunidade global e das
políticas que esta estabelecer. Em cada caso, é essencial que estas entidades
fundamentais concordem formalmente em não prejudicar o DNS e cumprir as
práticas operacionais padrão a que se chegou através do processo da ICANN.
Em segundo lugar, a delegação de assuntos normativos não-técnicos a
comunidades locais. Um segundo objetivo fundamental que não pode ser
atingido sem acordos formais com ccTLDs é a distribuição (delegação) de
questões normativas politizadas a entidades locais confiáveis, como governos,
ou organizações locais auto-regulamentadas (como a CIRA do Canadá, para o TLD
.a, ou auDA na Austrália), conforme determinam os Princípios do GAC. Ao
endossar os Princípios do GAC para o gerenciamento de ccTLDs, o governo dos
EUA e de outros países deu um grande apoio à proposta de que a comunidade
global da Internet (através do processo da ICANN) mantenha a responsabilidade
pela formulação de políticas globais para nomes e endereços (aquelas que
afetam a interoperabilidade e estabilidade globais), enquanto instituições
locais confiáveis assumem a responsabilidade por todas as outras áreas
determinantes (incluindo definição de preços, políticas de registro,
resolução de disputas, etc.).
Para que ICANN se limite à sua função de coordenação global, ela precisa
se desembaraçar dos assuntos normativos locais altamente politizados que
aparecem sobretudo em ccTLDs. Em quase todos os casos de redelegação, as
disputas sobre a administração de um ccTLD local se voltam para a
determinação da vontade da comunidade local da internet - que, juntamente com
os técnicos responsáveis, constitui o critério para as decisões de
redelegação, de acordo com a já tradicional política de IANA. Conforme a
missão básica da ICANN, essas responsabilidades só podem ser devolvidas às
comunidades locais da Internet se houver alternativas para ICANN que sejam
adequadas e confiáveis. Para que estas alternativas se qualifiquem como
plenamente confiáveis, é necessário um envolvimento e supervisão do governo
local ou de uma entidade comprovadamente confiável que seja reconhecida pelo
governo.
Sem acordos formais, a comunidade global da Internet, trabalhando através da ICANN, atualmente tem apenas uma ferramenta - embora essa seja
impraticável - para garantir o cumprimento de políticas globais por (quase
todos) administradores de ccTLDs que não têm um contrato vinculativo com
ICANN. Teoricamente, ICANN poderia recomendar que um ccTLD específico seja
redelegado a um administrador alinhado, e se o governo dos EUA aceitasse a
recomendação, os administradores não-alinhados de ccTLDS seriam substituídos.
Porém este tipo de ação contraria a missão básica da ICANN, pois implica em
muitas interrupções, pelo menos a curto prazo. O que solucionaria o problema
em muitas jurisdições seria se os governos nacionais usassem sua autoridade
para garantir a cooperação de seus administradores de ccTLDs. Como vimos nos
casos da Austrália e do Japão, os governos nacionais podem tomar medidas para
criar o ambiente adequado para acordos apropriados entre ICANN e ccTLDs. Sem
uma ação semelhante por outros governos, a maior parte desse problema não
será solucionada. Assim, uma ICANN com um apoio mais ativo dos governos
nacionais (mais do que se idealizou originalmente) será mais capaz de obter
os acordos necessárias com ccTLDs, e que são essenciais para o seu sucesso.
Operadores de servidores de nomes-raiz: Os operadores de servidores
de nomes-raiz são outra história. Estes não são financiados por ICANN, e sim
apoiados pela generosidade das instituições que os patrocinam e que são
voltadas para o interesse público, e pelo compromisso pessoal dos indivíduos
envolvidos. Três servidores de nomes-raiz são operados por agências do
governo americano; vários outros são operados a partir de outros locais dos
Estados Unidos, a maioria por contratados pelo governo (como VeriSign). Três
localizam-se fora dos EUA, sendo um no Reino Unido, um na Suécia e um no
Japão. Atualmente, os 13 operadores de nomes-raiz são a origem essencial da
raiz única, estável e determinante.
É essencial que os operadores de servidores-raiz participem plena e
completamente do processo da ICANN. Logicamente, isso exige acordos estáveis
e adequados entre ICANN e as instituições e indivíduos que operam os servidores de nomes-raiz. Após mais de
dois anos de discussões, chegamos a um consenso geral entre os diversos
operadores de servidores de nomes-raiz e ICANN sobre uma forma Protocolo de
intenções. No entanto, os avanços têm sido desanimadoramente lentos.
Por quê? Primeiramente, a inércia organizacional sem dúvida é um dos
responsáveis pela incapacidade de concluir os acordos. Os operadores de
servidores de nomes-raiz com quem ICANN trabalha são técnicos altamente
especializados e especialistas em operações de rede. Eles dedicaram
voluntariamente horas incontáveis à Internet com pouca ou nenhuma retribuição
além da satisfação por suas conquistas. Entretanto, muitas vezes não são eles
os tomadores de decisão em suas organizações, capazes de fazer cumprir
acordos externos. Embora os próprios operadores possam concordar com os
Protocolos de Intenções (MOUs) ou Acordos, alguns dos tomadores de decisões
podem estar apenas tomando conhecimento do que se espera de suas organizações
dentro dos acordos em questão.
Em segundo lugar, algumas organizações que patrocinam o operador de um
servidor de nome-raiz têm pouca motivação para assinar acordos formais, mesmo
na forma de MOU que está sendo contemplada. O que elas ganhariam com isso,
exceto talvez uma visibilidade indesejada e a possibilidade de litígios
incômodos? Elas não receberam fundos pelos seus esforços, portanto por que
deveriam assumir um compromisso contratual, ainda que vago? Não obstante,
acredito que chegamos a um consenso com os operadores de servidores de
nomes-raiz, de que MOUs irão aumentar a percepção - e, em última análise a
percepção se transforma em realidade - da estabilidade deste recurso
essencial. Parece haver um entendimento geral de que estes acordos são um
componentes necessário do progresso da ICANN em direção a uma estrutura mais
formalizada para a administração do sistema de nomes e endereços.
Naturalmente, ainda há dúvidas sobre qual tipo de acordo seria
apropriado. O que nós temos feito é
elaborar um acordo que apenas documenta a situação existente. A longo prazo,
entretanto, serão necessários documentos mais formais, tendo em vista a
natureza essencial destes componentes do DNS. Além disso, precisamos mudar
para um sistema no qual os operadores de servidores de nomes-raiz sejam
remunerados por seus serviços essenciais. Portanto, para uma ICANN plenamente
efetiva, capaz de cumprir sua missão, em última análise precisaremos de um
conjunto de arranjos mais definitivos e vinculativos com os atuais e futuros
operadores de servidores, e que exigirão fundos bem maiores do que os
atualmente disponíveis para ICANN.
Registros de endereços: Os registros de endereços são semelhantes
aos ccTLDs, pois esta área também exige um pequeno, porém importante elemento
de coordenação global. A maioria das decisões para políticas de endereços
pode ser feita em nível regional (RIR), porém aqui se apresenta um pequeno
aspecto de coordenação global absolutamente necessário. Estamos perto de
acordos com os RIRs, mas estes acordos (que foram intensamente negociados ao
longo dos dois últimos anos) estão incompletos em dois aspectos: (a) eles
permitem que os registros de endereços se recusem a cumprir políticas da ICANN com as quais não concordam, aplicando o último recurso de rescindir os
contratos, e (b) incluem limitações especiais sobre a proporção das
exigências de fundos da ICANN que os registros de endereços devem cobrir
segundo estes contratos. Embora estas não sejam falhas fatais, tendo em vista
a natureza cooperativa dos RIRs - e não são o maior problema enfrentado por
ICANN - são outra ilustração da dificuldade de obter a cooperação voluntária
e total de todos os participantes essenciais, necessária para que ICANN
cumpria sua missão.
Principais usuários, ISPs e provedores de backbone: A grande
maioria da comunidade comercial (além dos registros e registradores, que são
os mais afeados pelas políticas da ICANN) escolheu não participar do processo da ICANN. Naturalmente houve algumas exceções notáveis entre algumas
corporações e organizações de comércio, porém estas são a minoria. ICANN
agradece àquelas organizações que forneceram os fundos tão importantes para a
sobrevivência da ICANN em seu início, porém além daqueles registros e
registradores que têm um compromisso contratual, não houve uma ampla
participação daquelas entidades comerciais que mais dependem de uma Internet
confiável.
Durante os últimos anos, a indústria da Internet e suas associações
comerciais enfrentaram enormes desafios, incluindo uma economia em recessão
que deixou muitas empresas lutando para sobreviver. Assim, é compreensível
que justamente aquelas indústrias que investiram centenas de bilhões de
dólares na infraestrutura da Internet global (sem falar na comunidade
empresarial mais ampla que depende grandemente da Internet para suas
atividades comerciais) tenha dedicado um tempo assustadoramente pequeno para
participar da ICANN - assustador, já
que as falhas nos sistemas de alocação de nomes e endereços inevitavelmente
teriam sérios efeitos negativos sobre suas empresas e, através delas, sobre
cada pessoa e entidade que depende da Internet.
O resultado é que o processo normativo da ICANN fica empobrecido com a
ausência da maioria das entidades com o maior interesse direto na
estabilidade do DNSO e daquelas que serão mais afetadas por suas decisões e,
conseqüentemente, pela super-representação dos defensores de um interesse ou
outro em particular. Ao passo que essa falta de participação daqueles que
dependem de maneira vital do cumprimento bem-sucedido da missão da ICANN é
explicável, ela transfere uma enorme pressão sobre o que deveria ser uma entidade de desenvolvimento de
consenso e formulação de políticas, quando os principais interessados
permanecem em silêncio.
Isso também se aplica a outras instituições do setor privado, de academias
a ONGs. Tem havido uma participação isolada de algumas poucas dessas
comunidades, porém essa participação se concentrou excessivamente em
processos e procedimentos, impedindo que ICANN tomasse decisões sobre
assuntos importantes em tempo hábil. O fato é que um processo do setor
privado não pode funcionar com eficiência se os principais e mais importantes
elementos do setor privado não participarem produtivamente do processo.
Governos nacionais: Talvez os pontos acima sejam auto-explicativos.
O que talvez não seja tão óbvio assim é minha conclusão, baseada em todas as
nossas experiências até o momento, de que a participação ativa de governos
nacionais na ICANN é essencial para o seu sucesso.
Na verdade, em última análise, os governos nacionais talvez sejam o apoio
mais insubstituível da ICANN, no sentido que - não obstante os esforços ou
desejos dos outros interessados - o respaldo do governo é necessário para que a coordenação dos sistemas de
alocação de nomes e endereços na Internet
pelo setor privado seja viável. Se os governos optarem por assumir a
responsabilidade direta pelo gerenciamento dos sistemas de nomes e endereços
da Internet, têm a autoridade para fazê-lo. E mesmo se não fizerem essa
escolha, tendo em vista a importância do recurso global que ICANN foi
encarregada de criar, é irrealista imaginar que os governos simplesmente
ficarão sentados assistindo ao desdobramento dos processos da ICANN, sem sua
atenção e avaliação cuidadosa.
Hoje o Comitê Consultivo para Assuntos Governamentais é o único mecanismo
formal para a contribuição dos governos com ICANN. Apesar do esforço
significativo de muitos de seus membros, ele tem sido apenas um veículo
minimamente aceitável, em parte por causa da falta de compromissos adequados
por parte dos governos e em parte por causa das atitudes ambivalentes da
própria comunidade da Internet (refletidas da atitude da ICANN, que é
composta por essa comunidade) em relação ao envolvimento governamental. Além
disso, ao passo que todos os governos estão convidados a participar, a
existência do GAC não gerou a participação e o comprometimento esperado dos
governos, que são necessários para o sucesso da ICANN a longo prazo.
Reconheço que propor um papel maior para os governos dentro da ICANN
representa um afastamento significativo do conceito original da ICANN como
uma entidade exclusivamente do setor privado, mas estou convencido de que um
maior papel do governo é essencial para o cumprimento da missão da ICANN. A
participação apropriada dos governos nacionais contribuiria em grande medida
com o sucesso da ICANN, de pelo menos duas maneiras. Primeiramente, ela
garantiria a confiabilidade perante o público, que na opinião de todos deve
ser parte de qualquer organização global semelhante a ICANN. Em segundo
lugar, ela aumentaria a probabilidade de os governos estimularem de maneira
mais efetiva o envolvimento de seus cidadãos e entidades, fundamental para o
êxito da ICANN.
Se algo ficou claro no decorrer destes três últimos anos, é que uma
entidade puramente privada que precisa depender da cooperação voluntária de
muitas outras entidades provavelmente não será capaz de coordenar coisa
alguma em nível global sem um apoio governamental significativo. Na verdade,
cada uma das conquistas da ICANN até o momento dependeu, de uma maneira ou
outra, do apoio governamental, particularmente dos Estados Unidos. Em relação
ao provedor legado para registros e registradores nos TLDs com/net/org, NSI
(agora VeriSign), a ajuda do governo americano foi fundamental para conseguir
os primeiros contratos de registro da ICANN. Todos os outros acordos obtidos
por ICANN dependeram, em última análise, da boa-vontade do governo americano
em deixar claro (para seus contratados diretos e todos os outros) que ele não
estava aberto a mudanças no arquivo de zona de raiz obrigatório que não
fossem gerenciadas através do processo da ICANN. Principalmente se levarmos
em conta que muitos registros vêem ICANN como uma ameaça à sua independência
e não estão dispostos (apesar de todos os argumentos racionais e fatos em
contrário) a aceitar voluntariamente a exigência e autoridade de uma entidade
de coordenação global, a influência dos governos nacionais pode ser
fundamental para a criação de uma ICANN completa, bem equilibrada e efetiva.
A meu ver, a participação dos governos nacionais também é essencial para
acabar com o esforço de Sísifo de procurar um mecanismo funcional que garanta
a confiabilidade da ICANN perante o público. Três anos de muito esforço
provaram que uma eleição global on-line de membros do Conselho Administrativo da ICANN por uma membresia totalmente desconhecida e auto-selecionada não é uma solução viável para esse problema.
Enquanto virtualmente todos parecem concordar que ICANN deve ter os
interesses do público mais amplo da comunidade da Internet representados no
Conselho Administrativo, não existe um consenso sobre o melhor meio de obter
essa representação. Os problemas são múltiplos, e não são exclusivos da ICANN. O mundo não tem um centro de votação global, ou mesmo uma maneira
consistente de verificar a identidade de alguém; a noção de uma ?membresia?
especial, sem custos, auto-selecionada, criada a partir do ar,
compreensivelmente gerou o medo de controle, fraude e abuso. A votação
puramente on-line e eletrônica já foi proposta em várias circunstâncias em
todo o mundo, e continua encontrando mais ceticismo do que apoio entre os
especialistas. É simplesmente irrealista esperar que ICANN - com escassez de
pessoal, de fundos, voltada para os aspectos técnicos - seja capaz de
conseguir o que nenhuma outra instituição global conseguiu: um eleitorado
global que expressa sua vontade através de instituições representativas
estáveis.
Durante três anos, este assunto dominou a pauta da ICANN, ocupou uma
parcela considerável de recursos muito limitados e, apesar de todo este
esforço, ainda não produziu um plano aceitável. Na verdade, eu gostaria de
insistir que mesmo se tivéssemos encontrado um processo viável, esta
abordagem provavelmente não seria a forma mais eficaz de oferecer a
confiabilidade que todos concordam ser necessária. Na melhor das hipóteses,
um processo de eleição global é um jogo; como vimos, é inteiramente possível
que fatores irrelevantes, que não a estabilidade e segurança do DNS, motivem
um segmento muito grande de qualquer eleitorado imaginável.
Embora os governos variem em todo o mundo, bem ou mal eles são os
representantes mais indicados e mais qualificados de sua população - ou seja,
do interesse público. Como tal, sua
maior participação em geral, e em particular sua escolha coletiva de
indivíduos não-governamentais qualificados para preencher uma certa
quantidade dos assentos no Conselho de Curadores da ICANN, atenderia melhor a
necessidade de confiabilidade pública sem os sérios problemas práticos e
financeiros de eleições globais, das quais apenas alguns, relativamente
poucos, eleitores auto-selecionados poderão participar.
Como demonstra esta argumentação, ICANN precisa ter a participação ativa
daqueles que questionam a capacidade da ICANN cumprir as responsabilidades
que lhe foram atribuídas. Sem esta participação, não faz muita diferença se
ICANN é transparente, se prevê os procedimentos de apelação e reconsideração
apropriados, se os usuários comuns têm um canal de comunicação, ou se as
reuniões do Conselho Administrativo são públicas ou privadas. Para que o
trabalho da ICANN tenha sucesso, precisamos redefinir o que é necessário antes
de nos preocuparmos com o que é desejável. A participação ativa dos grupos
identificados acima é essencial para o sucesso - e, conforme sugeri - até
mesmo para a viabilidade da ICANN.
2. Excesso de atenção para o processo. ICANN nasceu com uma atenção
especial e intensa para processo e representação. O foco indevido sobre o
processo, excluindo a substância e eficiência, é o segundo maior problema
enfrentado por ICANN.
Sob vários aspectos, a criação da ICANN foi um exercício político, de fora
para dentro: que estrutura é necessária para garantir a participação deste ou
daquele grupo? O resultado foi uma entidade na qual a maioria dos grupos
parecia ser essencial no momento em que estava disposto a participar, mas não
necessariamente de uma forma ou dentro de uma estrutura criada para ser
efetiva. A idéia propulsora no momento da criação da ICANN era o consenso;
para mim está claro que a idéia propulsora de hoje, com a atenção renovada
precipitada pelos eventos de 11 de setembro, precisa ser a eficiência. Como
qualquer instituição com responsabilidade pela infraestrutura básica, ICANN
precisa ser capaz de agir quando necessário.
Isso não significa que processo, participação ou representação sejam
irrelevantes ou indesejáveis. Eles são altamente relevantes, mas precisam ser
vistos como meios de atingir as metas da ICANN, e não fins em si mesmos. O
foco primário da ICANN deve ser a eficiência, no sentido mais amplo do termo,
no desempenho de sua missão. Se ICANN não for eficiente, qual é a sua
vantagem sobre uma solução puramente governamental? E o processo - ainda que
necessário para identificar e acomodar de modo eficiente as diferenças entre
uma grande variedade de pontos de vista e motivações - certamente também deve
ser forjado de tal forma que não impeça a eficiência e o progresso. Um
processo que impede a eficiência é um fracasso.
O grande foco sobre processo no
momento da criação da ICANN em parte foi motivado por um desejo razoável de
muitos em proteger a Internet de eventuais decisões apressadas, não-sofisticadas
ou impensadas da ICANN, uma
instituição nova e não-testada. No entanto, esse impulso, associado a uma
dificuldade disseminada de entender o escopo naturalmente limitado da ICANN e
a ausência de uma autoridade coercitiva, causada pela criação de cada vez
mais voltas e camadas processuais, às custas da eficiência geral na
velocidade da Internet. Houve até mesmo tentativas de levar ICANN a
implementar os milhares e milhares de páginas de procedimentos
administrativos e regulatórios que se aplicam a agências do governo americano
- uma medida totalmente incompatível com os motivos para se criar uma
organização do setor privado.
Este foco sobre o processo também foi decorrente do que, em retrospectiva,
foi uma sensibilidade exagerada ao possível envolvimento de governos e
entidades governamentais na ICANN. O fato é que a Internet, e
conseqüentemente o gerenciamento e coordenação das funções de atribuição de
nomes e endereços na Internet, são fundamentais para os governos, porque têm
uma importância fundamental para seus cidadãos e empresas. É ingênuo supor
que os governos não estarão intensamente interessados e envolvidos na
elaboração de políticas globais para estas áreas. Na atual estrutura da ICANN, contudo, o envolvimento governamental se limita à função de assessoria
do Comitê Consultivo para Assuntos Governamentais. O descompasso entre essa
limitação teórica e o verdadeiro poder e influência de entidades
governamentais no gerenciamento de um recurso global tão importante tem se
tornado cada vez mais evidente na tensão entre o GAC e outras partes da
estrutura da ICANN.
Esse papel deliberadamente limitado dos governos na ICANN inevitavelmente
alimentou as demandas por outras e diferentes estruturas de confiabilidade.
Como ICANN eventualmente ?controlaria? um importante recurso global, segundo
alguns argumentos, ela precisa responder perante aqueles que são afetados por
suas decisões. Isso inclui, pelo menos teoricamente, e na opinião de alguns,
todas as pessoas e entidades no mundo.
Assim, recebemos solicitações de eleições globais com participação de
todos os indivíduos interessados, e pedidos para representação no Conselho e
outros indícios de status por parte de vários grupos e entidades afetados.
Uma das razões pelas quais ICANN ainda não obteve o apoio e envolvimento
necessários por parte dos mais interessados é que muitos participantes do
processo da ICANN dedicaram muita atenção aos vários assuntos
não-fundamentais que, em minha opinião, não deveriam receber uma relevância
tão grande. Em muitos casos, o efeito dessas distrações tem sido que ICANAN
parece ser uma coleção de interesses contraditórios, amarrados em um
organograma elaborado e complicado. O maior desvio do que deveria ter sido o
foco central da ICANN tem sido as muitas e diferentes noções de uma membresia
Geral.
Alguns - compreensível, mas muito erradamente, em minha opinião -
consideram isso como um esforço necessário para dar legitimidade para uma
organização não-governamental como ICANN. Estes acreditam que como ICANN não
é uma organização governamental, deveria criar seus próprios fundamentos
institucionais semelhantes aos de governos, em escala global. O argumento é
que, como ICANN toma decisões que podem ser interpretadas como políticas
públicas, o público precisa de um canal, e a melhor forma de fazê-lo é
através de eleições mundiais on-line. Talvez, mas quando isso acontecer, os
governos ou entidades indicados que têm envolvimento governamental a meu ver
com certeza poderão reivindicar com mais pertinácia que refletem verdadeiramente
o interesse do público do que milhares de eleitores auto-selecionados,
espalhados pelo mundo.
Após uma reflexão considerável, estou persuadido de que este conceito era
falho desde o início. A idéia é nobre, mas profundamente irrealista, e capaz
de gerar mais danos do que benefícios. Agora temos três anos de trabalho
muito duro de uma grande variedade de pessoas, tentando chegar a alguma
solução de consenso praticável - e ainda não há nenhuma. Se um comitê faixa
azul - liderado com competência por um ex-Primeiro Ministro da Suécia e
Representante das Nações Unidas na Bósnia, e composto por membros altamente
respeitados e esforçados - não é capaz de conseguir o consenso da comunidade
sobre este assunto, provavelmente não há um consenso a ser encontrado.
Uma parcela muito significativa do total de recursos dedicados a ICANN ao
longo dos últimos três anos foi gasta tentando resolver a tensão entre o
desejo de uma maior representação e responsabilidade em moldes
governamentais, por um lado, e uma ICANN praticável, efetiva e estável, por
outro. Agora é o momento de reconhecer que a eficiência no gerenciamento e
coordenação de políticas para nomes e endereços é o objetivo primário da ICANN e que os processos e valores quanto à representação devem ser atendidos
de maneiras compatíveis com o objetivo primário. Fazer as coisas de outra
maneira é autodestruição; se ICANN não for eficiente, ela fracassará, e nem
todos os processos e estruturas organizacionais do mundo poderão salvá-la. Um
substituto governamental multinacional para ICANN provavelmente não proverá o
tipo de processo que alguns acreditam ser essencial para ICANN.
Por todos estes motivos, cheguei à conclusão que o conceito de eleições
Gerais por um grupo auto-selecionado de eleitores desconhecidos não apenas é
falho, mas fatalmente errado, e que continuar dedicando a energia e os
recursos muito limitados da ICANN a este caminho muito provavelmente impedirá
a criação de uma instituição efetiva e viável. Precisamos encontrar outro
caminho mais efetivo para que a comunidade geral de usuários possa participar
adequadamente do processo da ICANN, seguindo o princípio que fundamenta o
conceito de eleições gerais -
assegurar que os interesses do grande público sejam efetivamente refletidos e
protegidos no processo de desenvolvimento de consenso da ICANN
Não é possível enfatizar demais este ponto: eu acredito totalmente nos
valores fundamentais da ICANN, abertura e participação. Uma ICANN isolada da
contribuição e envolvimento de indivíduos de toda a diversidade global da
Internet seria uma ICANN que falhou.
Embora sem dúvida alguns tentarão caracterizá-la de outra forma, minha
conclusão sobre a inviabilidade de eleições da membresia Geral NÃO é uma
crítica ao conceito de participação por indivíduos. Pelo contrário, acredito
que uma reforma da ICANN deverá resultar em maior abertura, mais diversidade
e canais mais claros, mais significativos para a participação de indivíduos e
organizações.
As discussões intermináveis sobre a viabilidade e conveniência de eleições
on-line representam um exemplo evidente de que a quantidade de energia
limitada da ICANN, dedicada por um quadro basicamente voluntário, foi
desviada para assuntos que são quase diametralmente opostos a sua missão, mas
não apenas isso. O processo de reconsideração é outro, no qual o tempo
precioso da equipe e do Conselho Administrativo foi dedicado ao que muitas
vezes são pedidos obviamente irrelevantes. O incipiente Painel de Revisão
Independente tem todas as qualificações para somar-se a este desperdício. Com
certeza ICANN exige uma atenção apropriada a processos, e deve haver
procedimentos adequados para canalizar e proteger a integridade desse
processo, particularmente entre uma comunidade tão diversa quanto a que o
processo da ICANN procura atrair. Porém a meu ver, a atual atenção da ICANN a
processos ultrapassou os limites.
É tempo de enfatizar nossas prioridades e reformar a estrutura e os
procedimentos da ICANN de modo que eles ajudem, e não impeçam o cumprimento
de sua missão básica.
3. Falta de fundos. Finalmente, o terceiro maior problema são
fundos inadequados. ICANN começou sua existência sem nenhuma garantia de
fundos de qualquer origem - governos u entidades privadas. Na realidade, ela
sobreviveu seus dias iniciais apenas por causa de empréstimos de empresas com
espírito público (e pela sorte de ter sido lançada durante a alta, e não na
baixa, parte do ciclo global de negócios). Hoje ela sobrevive com um fluxo de
receita intensamente negociado, derivado de um pequeno número de
intermediários muito interessados - que também têm grande influência na
definição do orçamento da ICANN. Talvez não seja surpresa que ICANN tenha
sido sub-financiada desde a sua criação.
Acredito que ICANN tem fundos insuficientes pelas seguintes razões:
- Existe uma redução significativa a cada ano dentro dos atuais
orçamentos, porque - sem os
devidos acordos vigentes - os ccTLDs não cobrem sua parcela do fardo.
Tem havido uma redução de US$400-500.000 a cada ano, um número que
provavelmente aumentará, se não houver uma mudança dramática na atitude
dos ccTLDs. Além disso, como não
existem acordos com ICANN, ainda estão em aberto as contribuições dos
RIRs (embora esses fundos tenham sido entregues em fideicomisso,
aguardando a conclusão dos acordos necessários).
- ICANN conseguiu acomodar essas reduções de fundos apenas por não
ter feito contratações nos níveis autorizados, e às custas das reservas
para construção. O primeiro
motivo significa que o trabalho não está sendo realizado efetivamente; o
processo da ICANN está sofrendo perigosamente com falta de pessoal, como
sempre esteve. O segundo dado é extremamente arriscado do ponto de vista
financeiro, como seria para qualquer organização, proibindo quaisquer
despesas inesperadas, incluindo, por exemplo, despesas com litígios. A experiência
nos ensinou que embora não seja possível fazer um planejamento exato, os
litígios nesta área são inevitáveis, e provavelmente aumentarão à medida
que aumenta a complexidade das
funções da ICANN.
- O que é ainda mais importante, os orçamentos
existentes seriam completamente inadequados, mesmo se houvesse fundos
suficientes. ICANN tem pouca ou nenhuma reserva de indivíduos
fundamentais, tornando a organização extremamente vulnerável à perda
dessas pessoas-chave. Isso poderia causar sérias instabilidades em
determinadas circunstâncias. Além disso, há muito poucas pessoas para
fazer um trabalho adequado - mesmo porque muitos integrantes da equipe
já estão trabalhando por um período insustentavelmente longo. Está claro
que há pessoas de menos para arcar com responsabilidades adicionais,
como segurança, monitoramento e cumprimento de contratos, terceirização
de serviços de monitoramento de redes, coordenação da política para IDN,
etc. E ICANN não tem fundos para pagar por gastos imprevistos,
engajar-se no tipo de processo de comunicação pública correspondente
ao seu tipo de organização, ou
assumir os custos das operações de servidores-raiz - apenas para citar
algumas das tarefas que muitos acham que uma ICANN efetiva deveria
empreender.
Para ser eficiente, ICANN precisa ter um número suficiente de pessoas
adequadas (e serviços de suporte) para executar as tarefas exigidas. Como ela
não teve a participação ativa suficiente das entidades essenciais, e porque a
meta por princípio tem sido financiar ICANN apenas no nível mínimo
necessário, ela não teve os recursos para contratar o número adequado de
pessoas com os talentos certos. O resultado inevitável é que os serviços não
podem aspirar aos níveis desejados e muita coisa é adiada ou não é feita. Com
isso, não pretendo denegrir os esforços do que eu considero uma equipe
extraordinária da ICANN - todos os seus membros estão sobrecarregados e
falta-lhes a ajuda necessária - o serviço e o suporte que eles oferecem são
realmente impressionantes nessas circunstâncias. No entanto, hoje ICANN não
pode fazer tudo o que deveria fazer ou no tempo necessário.
O que talvez seja ainda mais importante, tal como está sendo financiado
atualmente, o processo da ICANN jamais terá condições de realizar suas
funções planejadas de coordenação e formação de consenso, suas
responsabilidades de segurança, suas tarefas de coordenação jurídica e
monitoramento de contratos, e suas funções administrativas Além disso, os
custos estão aumentando, mesmo para cobrir suas atuais atividades. De modo
geral, o processo da ICANN apresenta um déficit de pelo menos 10 a 12
funcionários em tempo integral, e possivelmente mais - dependendo do que se
espera dela. Uma ICANN totalmente financiada exige um orçamento operacional
300 a 500% maior do que seu atual nível orçamentário, mais fundos para
despesas únicas significativas, caso se inclua o financiamento dos operadores
de servidores de nomes-raiz e a criação de reservas apropriadas.
Esse volume de fundos necessários exige uma estrutura de financiamento muito
diferente da que existe hoje. Minha conclusão é que as fontes de recursos da ICANN precisam ser expandidas, e o financiamento geral precisa aumentar
significativamente. Hoje em dia, o financiamento da ICANN depende totalmente
da cooperação das entidades que geram receita através de serviços no espaço
de nomes e endereços, que servem
essencialmente como intermediários entre ICANN e os registrantes de nomes,
que são a fonte primária destes fundos. Esse é um número limitado de
entidades, e assim ICANN fica extremamente vulnerável. Além disso, isso
significa que os outros participantes essenciais para o sucesso da ICANN não
têm uma participação imediata ou direta no orçamento da ICANN. Todos os
integrantes do processo da ICANN que tiverem condições de pagar uma parte dos
fundos da ICANN devem fazê-lo. Com ?a mão na massa?, esses participantes
perceberão uma conexão mais imediata e direta com o sucesso do processo da ICANN. E isso inclui governos.
MISSÃO IMPOSSÍVEL?
Sem a participação dos grupos necessários, sem a devida atenção sobre o
progresso e eficiência, acima do processo, e sem os fundos necessários para
cumprir sua missão de modo eficaz, é simplesmente irrealista presumir que
ICANN terá condições de concluir a transição para uma administração totalmente
independente do DNS e das questões políticas correspondentes pelo setor
privado. Alguém poderia perguntar ?E daí?? Por que não manter o status quo?
Para que esta seja uma alternativa viável, o status quo precisa ser
sustentável, refletindo, tal como agora, uma transição incompleta. Em minha
opinião, o status quo não é sustentável.
Em primeiro lugar, pelos motivos descritos acima, ICANN não tem os
recursos necessários mesmo para continuar com o atual nível de operações.
Isso é especialmente verdade se estes recursos inadequados continuares sendo
desviados para questões (como as eleições At Large - Gerais) que realmente
não são essenciais para a missão da ICANN. O atual modelo de fundos não é
adequado nem sustentável.
Em segundo lugar, o atual papel do governo dos EUA não é compatível com a
estabilidade global a longo prazo. Até o momento, ICANN atraiu uma
participação internacional considerável, porém essa resposta gratificante se
fundamenta na crença de que em breve o controle do DNS por parte do governo americano
será transferido para um processo político internacional, representado por
ICANN. A própria ICANN tem sido internacionalizada com sucesso; agora há
apenas seis cidadãos americanos no conselho da ICANN, constituído de 19
membros. Esse conselho (e muitos da comunidade da ICANN) está cada vez mais
inquieto com a continuidade da dependência do envolvimento exclusivo do
governo americano, e caso isso seja considerado como um fato inevitável, a
participação internacional na ICANN sem dúvida irá diminuir. Portanto, sem
uma previsão realista de uma transição bem-sucedida - e, a meu ver, essa
previsão não é realista, com a atual estrutura e operação da ICANN - o apoio
internacional a ICANN se extinguirá. Se ICANN passar a ser vista (como está
começando a ocorrer em alguns setores) como uma mera ferramenta do governo
dos EUA, ela não terá mais nenhuma esperança de cumprir sua missão original.
Neste ponto, pelo menos alguns (e eu acredito que são muitos) dos atuais
participantes da ICANN (Conselho Administrativo, equipe e voluntários) podem
optar em não continuar fazendo o que, afinal, é uma tarefa altamente
exaustiva e ingrata.
Em terceiro lugar, o que potencialmente é mais crítico ainda, uma ICANN
fraca torna algumas das infraestruturas essenciais da Internet desnecessariamente
vulneráveis a ameaças externas - fragmentação do espaço de nomes, raízes
alternativas, nomes de domínio internacionalizados não-interoperáveis,
exercícios de poder de mercado contrários à concorrência, e mesmo ameaças à
segurança. O uso de raízes alternativas agora ocorre dentro de limites
toleráveis, porque a comunidade como um todo compreende a necessidade de um
único espaço de nomes exclusivos e, conseqüentemente, uma única raiz, e
porque prefere trabalhar dentro do processo da ICANN. Uma ICANN
permanentemente fraca poderia mudar essa situação, e com certeza encorajaria
esforços ainda mais agressivos por parte de empreendedores, interesses comerciais poderosos, e talvez alguns
governos, em colocar vantagens pessoais, de curto prazo, acima da cooperação
global, interconectividade universal e estabilidade a longo prazo. A
introdução de caracteres internacionalizados no DNS é um assunto muito
difícil, e poderia levar à fragmentação da Internet, com raízes alternativas,
controladas de modo central, sendo criadas em apoio a preocupações
nacionalistas reais ou alardeadas. Como ficou claramente demonstrado na
Reunião da ICANN para Segurança em novembro último, hoje em dia o DNS é muito
robusto e resiliente. A segurança é levada muito a sério, mas a capacidade da ICANN em implementar as melhorias necessárias (por exemplo, no nível de
servidor de nomes-raiz) é posta em risco pela falta de fundos e pela falta da
participação plena dos parceiros essenciais. Todos estes são exemplos dos
tipos de ameaças às quais uma ICANN dificilmente poderá resistir.
Simplificando, uma ICANN ineficaz virtualmente abre as portas para que
aqueles que têm interesses comerciais, culturais ou políticos regionais
fragmentem a Internet em zonas que não são capazes de se comunicar entre si
de maneira confiável - um resultado que seria profundamente negativo para a
Internet e que atrasaria seriamente o seu crescimento como um meio global que
sustenta objetivos comerciais e sociais, e um meio de comunicação e
expressão.
A REFORMA NECESSÁRIA PARA A PAUTA
Este é um quadro desolador, mas acredito ser realista. Não tenho qualquer
bagagem histórica; eu não estava lá no momento da criação. Não tenho nada a
proteger desde o início. Mas sou responsável por tentar administrar ICANN, e
terei de responder por suas decisões durante meu mandato. Também sou
responsável por assegurar que o Conselho Administrativo e todos os que apóiam
ICANN tenham um quadro nítido dos sucessos e fracassos da ICANN e das suas
futuras perspectivas.
Em minha opinião, as suas perspectivas legítimas são inexistentes, a menos
que nos engajemos em uma significativa reforma da estrutura e das operações da ICANN. Ou precisamos um compromisso renovado com a missão original da ICANN, acompanhada por um foco bem claro dos passos específicos que
precisarão ser feitos para deixar ICANN numa posição adequada para cumprir
essa missão, ou precisamos avaliar se ICANN deve se retirar em favor de uma
diferente abordagem para coordenação global.
Entretanto, justamente porque este é um quadro desanimador, isso não
significa que não haja nada que possamos fazer para que ICANN funcione. A
missão original da ICANN era e continua sendo inteligente e válida; se puder
ser realizada efetivamente, redundará em benefício de toda a comunidade global
da Internet. Contudo, precisamos encarar o fato de que para que isso
aconteça, é necessária uma grande reforma. Os problemas que eu citei não
podem ser resolvidos ao improvisar um ou outro aspecto da ICANN, tentando
comer o elefante com um pedaço de cada vez. Eles requerem uma abordagem
totalmente nova.
As reformas que eu proponho exigirão um novo pensamento e uma nova atitude
mental. As reformas não se voltarão àqueles cujo pensamento se limita a seus
próprios interesses, no sentido mais estreito. Espero que elas sejam
abraçadas por aqueles que vêem seus
próprios interesses dentro do contexto mais amplo do que é bom para a
comunidade como um todo. Naquilo que eu proponho, muitos se verão tanto como
?vencedores? e, em um sentido mais limitado como ?perdedores?. Porém a missão
geral e uma ICANN efetiva serão, sem dúvida, os vendedores. O que é
necessário hoje é reformar ICANN e fazê-lo de dentro para fora, começando com
a missão básica e elaborando uma estrutura que possa ser concretizada, não
apenas uma com a maior popularidade.
Tendo isso em vista, o que é essencial para a eficiência da ICANN?
Primeiramente, sua finalidade é gerenciar um recurso global, portanto ela
deve ter uma estrutura compatível com esse objetivo. Isso significa que ICANN
precisa ter um corpo administrativo efetivo e geograficamente diversificado.
Como observaram vários membros da comunidade, a missão da ICANN é um dever
público. Por essa razão, deve ser administrada por um Conselho de
Curadores.
1. O Conselho de Curadores. ICANN precisa de um Conselho de
Curadores internacional, composto por pessoas sérias e competentes. A missão da ICANN é uma responsabilidade muito séria, que substitui o gerenciamento
governamental internacional de um recurso global básico. Ela requer pessoas
altamente capacitadas, dedicadas, reconhecidas pelos principais interessados
como competentes para conduzir esse bem público. Até o momento, presumimos
que poderíamos encontrar pessoas suficientes dessa categoria, vinculadas ao
bem público, e não a interesses especiais, que se ofereçam para essa missão,
e em grande parte ICANN tem sido afortunada por isso ser realidade até agora.
Contudo, é arriscado presumir que isso sempre será assim, principalmente
tendo em vista os caprichos de processos eletivos, que podem passar a ser
controlados por interesses particulares.
Portanto, precisamos ter formas mais ativas para procurar o tipo de
Curadores necessários. Proponho que 10, de um total de 15 curadores, sejam
selecionados pelo processo At Large (Geral). Uma determinada parcela desses
Curadores Gerais (eu sugiro cinco, desses 10) seria selecionada de alguma
forma por governos nacionais, em sua qualidade como condutores do interesse
público. Desse modo atingiríamos dois objetivos: (1) cumprir a meta de
responsabilidade perante o público, e (2) aumentar o nível de interesse e
participação dos governos nacionais junto a ICANN. Curadores selecionados em
nível governamental levariam ao Conselho de Curadores a perspectiva do grande
público, e provavelmente seriam defensores eficientes desses interesses, com
menos probabilidade de serem representantes de interesses particulares. Em
comparação a outros métodos de compor um Conselho com responsabilidade
pública, essa solução teoricamente seria mais simples, do ponto de vista administrativo,
e bem menos dispendiosa.
Eu sugiro que os cinco Curadores Gerais selecionados em nível
governamental representem as cinco regiões geográficas da ICANN. Os detalhes
desse processo de seleção devem ser deixados a cargo dos governos, embora
seja possível imaginar que esta escolha possa ser feita tanto por
organizações governamentais regionais quanto pelo Comitê Consultivo para
Assuntos Governamentais da ICANN. Para evitar conflitos de interesses e
ansiedades quanto à lealdade primária, proponho também que se mantenha o
atual papel da ICANN, impedindo que funcionários do governo tenham
responsabilidades normativas. Em outras palavras, os governos escolheriam um
grupo de Curadores não-governamentais para representar os interesses do
grande público. Como representantes das cinco regiões geográficas da ICANN,
os curadores Gerais (At Large) atenderiam aos objetivos de responsabilidade
perante o público e de diversidade geográfica..
Os cinco Curadores Gerais (At Large) restantes seriam selecionados através
de um processo aberto e consultivo do Comitê de Indicações (NomCom). O NomCom seria compostos por
integrantes e não-integrantes do Conselho de Curadores. Sua função seria
identificar líderes altamente qualificados, respeitados e instruídos, com a
capacidade e experiência necessárias, provenientes de diferentes lugares e
setores, que não sejam necessária ou primariamente representantes de grupos
de interesses ou entidades.
Como a estrutura da ICANN deve retratar a participação direta das pessoas
mais entendidas nos assuntos técnicos e políticos nas deliberações dos
Curadores, sugiro que os demais cinco assentos no Conselho de Curadores sejam
ocupados ex officio. Estes cinco curadores Ex Officio devem
incluir o CEO, os três presidentes dos Conselhos Políticos descritos abaixo,
e o presidente do Comitê Consultivo para Assuntos Técnicos. Além disso, o
presidente do Comitê Consultivo para Assuntos Governamentais e uma pessoa
designada pela Diretoria de Arquitetura da Internet devem compor o Conselho
como membros ex-officio não-votantes, a fim de assegurar a estreita
coordenação com essas entidades essenciais.
Acredito que o atual Conselho é um pouco maior do que o desejável, e assim
eu reduziria o novo Conselho de Curadores a 15 pessoas. Como os atuais
mandatos dos quatro diretores originais restantes expiram ao longo desse ano,
ao mesmo tempo que o mandato dos atuais diretores Gerais (At Large), o novo
Conselho de Curadores já seria menor do que o atual Conselho, bastando não
preencher quatro assentos. Os mandatos devem ser escalonados, a fim de
garantir que apenas 1/3 dos mandatos no Conselho expirem no mesmo ano.
Entretanto, a continuidade é muito desejável, e eu proporia que curadores
Gerais (At Large) pudessem servir por até dois mandatos consecutivos de três anos,
sujeitos à re-indicação no final do primeiro mandato de três anos.
Obviamente, este Conselho de Curadores proposto, ainda que seja
representativo da comunidade de interessados na ICANN, em sua maioria não é o
produto de eleições. Isso porque o principal objetivo é produzir um Conselho
de Curadores eficiente, e não alocar assentos para grupos de interesse ou um
eleitorado específico, ou atender on-line ao enorme número de instituições
governamentais necessárias para assegurar eleições justas. Naturalmente, será
importantíssimo que todos os segmentos da comunidade sintam que seus
interesses são compreendidos e levados em conta pelo Conselho de Curadores,
mas isso não significa que o processo de seleção seja obrigatoriamente
eleitoral, no sentido de eleições governamentais baseadas em sufrágio
universal. Como demonstram minhas sugestões para os Conselhos para Assuntos
Políticos, descritas abaixo, uma ICANN reformulada deverá ser um corpo
amplamente participativo, organizado para facilitar discussões e idéias da
base para o topo. Mas ela também precisa ser algo realmente praticável, de
modo que essas discussões e idéias possam ser traduzidas em ações, quando
necessário. Para mim, isso significa que a seleção de Curadores deve se
basear em credenciais e habilidades individuais, e na disposição e capacidade
de contribuir, e não na popularidade pessoal, pautas de grupos de interesses
ou na capacidade de recrutar um número pequeno, porém suficiente, de
eleitores auto-selecionados.
2. Composição do quadro de funcionários e financiamento. Mesmo um
Conselho muito ativo e engajado não estará
intimamente envolvido nas atividades do dia-a-dia. E existem muitas
dessas atividades, que vão desde as funções IANA e serviços técnicos, até
administração de contratos e informação e educação do público, além de desenvolvimento de
políticas e administração geral. Uma ICANN efetiva, como qualquer outra
entidade comercial, primeiramente relacionaria as tarefas necessárias ou
desejáveis, calcularia os custos da contratação de pessoal e proveria os
recursos necessários para desempenhar essas tarefas em tempo hábil e de forma
eficiente, e só então gerar uma estrutura de fundos que forneça os fundos
necessários para atender essas necessidades. Em outras palavras, os fundos
devem se basear nas necessidades, não nos desejos de participantes
individuais.
Enquanto certamente existem méritos em gerar contribuições de todas as
entidades afetadas, é impossível conceder a todos os que estão sujeitos aos
processos políticos da ICANN o poder de veto para os fundos requeridos para
cumprir a missão da ICANN.
O atual processo de financiamento ainda decorre da noção de que, como
entidade puramente privada, ICANN deveria depender da aprovação daqueles que
estão sujeitos ao seu controle regulatório. Essa idéia tinha deficiências
conceituais no momento em que ICANN foi criada, e a prática mostrou que estas
preocupações eram válidas. Tornou-se claro que nem todos os que deveriam
estar envolvidos no processo da ICANN tinham interesse em financiar as suas operações.
Assim, o Conselho de Curadores e a equipe da ICANN deveriam ser
responsáveis pela elaboração do orçamento, com um processo totalmente
transparente para a contribuição da comunidade da ICANN. A confiabilidade,
que era o objetivo do processo original, pode ser oferecida por um processo
aberto para elaboração do orçamento e explanação, e pela participação dos
Curadores At Large (Gerais) nestas decisões.
Com o propósito de ampliar a base de fundos e gerar o volume de fundos
necessário, ICANN deve combinar o financiamento básico (gerado por governos e
pelas entidades que firmam contratos com ICANN) e um financiamento decorrente
do pagamento de taxas (por parte das outras entidades que participam do
processo normativo da ICANN ou utilizam os seus diversos serviços);
3. Estrutura normativa. Não é necessário que todos os Curadores
sejam grandes conhecedores dos aspectos técnicos das questões que abordarão.
Afinal, eles não estarão definindo códigos ou criando protocolos, mas estão
incumbidos de formular normas e tomar decisões administrativas. No entanto,
eles precisam ter acesso a e a cooperação de pessoas e entidades tecnicamente
qualificadas.
O atual conceito da ICANN se baseia na noção de um desenvolvimento de
normas ?da base para o topo?, sendo as Organizações de Apoio responsáveis
pelo desenvolvimento das políticas, e o Conselho Administrativo teoricamente
é apenas o instrumento para a implementação dessas políticas. Em
retrospectiva, a noção de um processo normativo de consenso inteiramente ?da
base para o topo? simplesmente provou ser impraticável, em parte porque o
processo está muito vulnerável a ser controlado por interesses especiais, e
em parte porque ICANN se baseia inteiramente em voluntários para fazer todo o
trabalho. Além do mais, aqueles que são afetados pelas decisões normativas
deveriam ter um papel bem definido, estabelecendo os fundamentos dessas
decisões e oferecendo uma assessoria sensata ao Conselho de Curadores.
Essa análise leva-me a sugerir a substituição das atuais Organizações de Apoio
por alguns Conselhos para Políticas. Esses incluiriam um Conselho de
Políticas para Atribuição de Nomes e Endereços, um Conselho de Políticas para
Nomes de TLDs Genéricos, e um Conselho de Políticas para Nomes de TLDs
Geográficos. Para serem mais eficientes, cada um desses conselhos seria
apoiado pela equipe correspondente, e poderia ser administrado por um Comitê
de Direção, formado por alguns assentos ex officio (para
representantes de várias categorias ou entidades) e algumas pessoas nomeadas
através do processo NomCom descrito acima, e confirmadas pelo Conselho de
Curadores. Além disso, manter-se-ia o Comitê Consultivo para Assuntos
Governamentais, sendo criado um novo Comitê Consultivo para Assuntos
Técnicos. O atual Comitê Consultivo para o Sistema de Servidores Raiz
continuaria como o Comitê de Operações dos Servidores de Nomes-Raiz.
Finalmente, o recém-formado Comitê para Segurança continuaria responsável
pela assessoria e coordenação dessa área crítica.
No interesse de criar tanto uma base mais ampla de financiamento e quanto
estimular a participação plena e ativa dos interessados mais importantes, a
participação plena nos Conselhos de Políticas e Comitês Consultivos deve ser
associada, quando apropriado, à participação no financiamento da ICANN. Por
exemplo, apenas os registros e registradores que têm contratos com ICANN
devem ser habilitados como possíveis membros em um Conselho de Políticas,
inclusive tendo representantes nos Comitês de Direção. Talvez seja
conveniente que condições similares se apliquem a outros participantes nos
Conselho e Políticas. Além disso, precisamos abandonar de maneira explícita e
permanente a noção de que cada indivíduo com um interesse na política do DNS
tem algum ?direto? a uma participação eqüitativa na ICANN, não importa qual
seja seu efeito sobre a eficiência da ICANN. Essa conclusão se baseia na
atenção sobre a missão básica da ICANN, o gerenciamento efetivo das políticas
globais para nomes e endereços. O público geral deve ter direito a um
processo de notificação e comentário efetivo, de opinar antes que se tomem
decisões importantes, e de observar o processo normativo, porém nós
constatamos que ?direitos? ilimitados a uma participação eqüitativa de
qualquer indivíduo que acha essa área interessante não são compatíveis com
uma ICANN efetiva. Portanto, enquanto a membresia nos Conselhos de Políticas
deve ser concedida a especialistas e interessados diretamente afetados, cada
Conselho deve ser aberto, de algum modo, à participação e cooperação dos
indivíduos e organizações interessados.
Para que isso seja possível, proponho a reformulação do conceito de
eleitorado. Para ajudar a gerar
participação, facilitar deliberações significativas e estruturar a
cooperação, os eleitorados atualmente existentes na DNSO seriam convidados a
se reconfigurar e continuar como Fóruns auto-organizados, que se estendem
entre os Conselhos da ICANN. Em seguida, os fóruns poderiam participar de
cada um dos Conselhos, oferecendo assessoria, elaborando e avaliando
propostas, e representando os seus membros, quando conveniente. Por exemplo,
o Fórum para ISPs seria um canal para seus membros formularem propostas sobre
gTLDs, ccTLDs e políticas para endereços, e seria um meio de cooperar com o
Comitê de Indicações. A função dos fóruns seria desviar a atenção dos debates
sobre procedimentos para deliberações sobe assuntos políticos importantes do
DNS. Tal como é o caso atualmente, por definição alguns fóruns seriam
limitados a membros definidos pela existência de um relacionamento contratual
com ICANN (isto é, os registros de gTLDs, de ccTLDs e os registradores de
gTLDs), ao passo que outros seriam mais abertos e definidos por função (por
exemplo, ISPs, eleitorados não-comerciais e para propriedade intelectual).
Novos fóruns também poderiam ser criados; p. ex., eliminando-se o atual conceito de representação matematicamente
eqüitativa para cada fórum no Conselho de Nomes, ICANN poderia desenvolver e
implementar com mais rapidez critérios para o reconhecimento de novos fóruns
auto-organizados (por exemplo, poderíamos imaginar fóruns para redes
universitárias e acadêmicas, usuários individuais e pequenas empresas,
provedores de backbone, etc.), sem encontrar resistência por parte dos
fóruns existentes em razão de uma temida diluição da sua influência.
Permitam-me dizer algumas palavras como imagino que o conceito de uma
organização At Large (Geral) se adapta a esta estrutura reformada da ICANN. O
Relatório Final do Comitê de Estudos para Membresia Geral contém um grande
número de sugestões bem elaboradas e boas idéias sobre como estruturar uma
organização At Large com o objetivo de ajudar ICANN a aumentar a participação
significativa de usuários individuais da Internet em todo o mundo. De acordo
com a atual terminologia da ICANN, o ALSC denominou essa entidade como
Organização de Apoio a uma Membresia Geral (At Large). Concordo totalmente
com a afirmação do ALSC de que ICANN iria se beneficiar muito com uma
organização At Large que conduzisse pesquisas, promovesse deliberações e
atraísse novas idéias e vozes ao processo e ICANN. Acredito que uma ICANN
reformulada deveria incluir esse tipo de entidade At Large, criada para unir
indivíduos ao processo da ICANN, de uma maneira muito aberta e direta. No
futuro diálogo com o ALSC e a comunidade, espero que se explore como o seu
conceito de uma organização at Large melhor se adapta a uma ICANN reformada.
4. Transparência e processo. Como já foi mencionado, atualmente
ICANN está sendo estrangulada pelo processo. Permitiu-se que o processo se
tornasse o valor predominante nas deliberações da ICANN. O sistema de
gerenciamento do DNS que Jon Postel operou de forma tão eficaz no passado não
tinha compromissos definitivos com processos particulares, e com certeza não
era transparente - mas funcionava!
Não podemos recriar Jon Postel ou seus processos, e provavelmente
eles não funcionariam bem agora. Porém para conseguir uma ICANN reformada
precisamos começar de dentro para fora - com a meta da eficiência - e não de
fora para dentro. Assim que identificarmos uma estrutura viável, o processo e
a transparência poderão ser obtidos de modo compatível com esse objetivo
primário.
Isso não sugere uma organização secreta e opaca. Na verdade, uma ICANN
efetiva precisa ser muito transparente, e certamente precisará ter processos
abertos para garantir que todas as contribuições relevantes sejam
consideradas e que essas decisões políticas
contribuam de fato para o objetivo de um DNS estável e efetivo.
Fundamentais para a experiência da ICANN - e essenciais para seu sucesso até
aqui - têm sido os valores básicos de abertura e ampla participação. Eu
acredito firmemente nesses valores, e espero reforçá-los em uma ICANN
reformada. ICANN pode e deve fazer melhor ao conquistar a transparência,
propiciar uma participação significativa e promover o envolvimento da
diversidade global da Internet. Acredito firmemente também que ICANN precisa
de um arcabouço inteligente de cheques e balanços, mas creio que podemos
fazer melhor do que a atual estrutura.
A meu ver, existem alguns princípios fundamentais para uma ICANN reformada
(e bem-sucedida): (1) O Conselho de Curadores precisa ser capaz de tomar
decisões políticas, não simplesmente ratificar ou rejeitar aquelas que são
propostas por entidades subordinadas; (2) os Curadores devem ter autoridade para
tomar deliberações privadas; e (3) tendo um ombudsman adequadamente
financiado e independente, não há nenhuma necessidade ou justificativa para
algum mecanismo de revisão independente que cria um ?super Conselho? para um
determinado propósito. Isso significa que:
A. Os Conselhos de Política
deve ser identificados claramente como corpos consultivos, e sua assessoria
ao Conselho de Curadores será considerada por seus méritos persuasivos, não
por sua suposta validade. A experiência mostra que a DNSO, a única
Organização de Apoio com mais de quatro membros, tem sido apenas
marginalmente eficiente ao gerar decisões políticas, ou mesmo oferecendo
assessoria política. Em parte, isso decorre da falta de pessoal em tempo
integral, o que coloca toda a carga da elaboração de políticas sobre os
voluntários, já sobrecarregados, que precisam tentar passar propostas
políticas pela multidão complexa e barulhenta da DNSO, formada por grupos de
trabalho, grupos constituintes e o Conselho de Nomes. Em uma ICANN reformada,
os Conselhos de Política teriam o pessoal apropriado. Mas em parte o bloqueio
característico da DNSO se deve à dificuldade inevitável de conseguir o
consenso entre partes com objetivos próprios, porém conflitantes. Essa dificuldade foi agravada pela noção de
validade presumível, que isentou as Organizações de Apoio da disciplina de
ter de desenvolver recomendações apoiadas de forma persuasiva. Eu não assino
a afirmação de que a falta de consenso significa que não deve haver nenhuma
decisão; isso pode se aplicar a casos específicos, mas certamente não é uma
verdade universal. Para ser efetivo, o Conselho de Curadores da ICANN precisa
ser autorizado claramente a tomar decisões, mesmo que não haja um consenso
evidente, na medida em que o julgue necessário para desempenhar a missão da ICANN.
Isso não significa que o
Conselho de Curadores deva ter autoridade para simplesmente ignorar as
recomendações de seus Conselhos de Políticas. Para começar, a composição do
Conselho de Curadores, com seus Curadores Ex officio, incluindo os
presidentes (ou seus representantes) de cada Conselho de Política, sugere que
isso não será muito provável em qualquer eventualidade. O Conselho de
Curadores será incumbido de analisar cuidadosamente todas as recomendações de
seus Conselhos de Política, e explicar claramente as razões pelas quais
eventualmente decidiu não aceitar essas recomendações. O Conselho de
Curadores deverá notificar o público com antecedência de todos os assuntos
que analisar, e publicar em tempo hábil as atas completas e integrais de suas
reuniões. Em outras palavras, o Conselho de Curadores deve agir de acordo com
uma entidade à qual se confiou uma responsabilidade global - de maneira
aberta e transparente, mas também eficiente.
B. As reuniões trimestrais
muito dispendiosas e demoradas realizadas em vários locais do globo não são
necessárias, nem desejáveis. O atual Conselho Administrativo já reduziu o
número dessas reuniões para três durante esse ano, e acredito que deve haver
somente duas dessas reuniões a cada ano. Naturalmente, para ser eficiente, o
Conselho de Curadores precisa se encontrar mais de duas ou mesmo quatro vezes
ao ano, como faz o Conselho Administrativo atualmente - por telefone, através
de encontros pessoais, por e-mail ou de outra forma. Na verdade, as únicas
reuniões do Conselho Administrativo que são realmente públicas hoje em dia
são as reuniões trimestrais, e a imagem do Conselho Administrativo da ICANN
sobre um estrado em um auditório público não contribui em nada com a meta de
um gerenciamento efetivo da política para o DNS.
Essas reuniões do Conselho,
geograficamente dispersas, tiveram alguma importância para a comunidade local
da Internet, que muitas vezes aumentou sua visibilidade perante a comunidade
mais ampla, e por isso eu não as eliminaria inteiramente, embora fosse bom
encontrar maneiras de conseguir este objetivo sem todos os custos de viagens.
Os custos diretos dessas reuniões para ICANN são significativos, os custos
indiretos para todos os participantes são enormes, e ainda não está claro se
os benefícios compensam os custos.
Como forma de equilibrá-los, eu realizaria essas reuniões duas vezes por ano.
Muito provavelmente elas precisariam ser estruturadas de outra forma, tendo
mais as características de conferências da ICANN do que de reuniões da ICANN,
talvez com temas predominantes (como no ano passado, com o sucesso do tema
?Segurança? na reunião de novembro). A extensão também poderia ser reforçada
por grupos de Curadores e membros da equipe participando de mais reuniões
regionais, ou realizando mini-reuniões e sessões para participação em todo o
mundo. Parece perfeitamente razoável
determinar que um grupo dos Curadores da ICANN realizará pelo menos uma
sessão aberta em cada região geográfica a cada ano, de preferência durante
uma grande reunião ou conferência da Internet.
C. Finalmente, a atual
armadura de mecanismos artificiais de confiabilidade deve ser substituída por
um Gerente de Participação Pública (a fim de garantir mecanismos eficazes
para a consciência e os comentários do público sobre assuntos da ICANN) e uma
função de Ombudsman, que tenha um número suficiente de pessoal e fundos para
responder a queixas e pedidos de reconsideração. Essa função substituiria o
atual processo de reconsideração e o Painel de Revisão Independente, ainda a
ser criado.
Deve haver um processo de
reconsideração, mas eu acredito que todas as decisões finais deverão ficar a
cargo do Conselho de Curadores da ICANN. Um processo de reconsideração
certamente é apropriado para decisões da equipe; afinal, numa ICANN
adequadamente financiada e equipada, o quadro de funcionários irá desempenhar
todas as operações do dia-a-dia, e portanto é aconselhável que exista algum
mecanismo formal para que aqueles que forem afetados pelas decisões da equipe
solicitem ao Conselho de Curadores que este reveja aquelas decisões
específicas. Além disso, parece não
haver objeções, e algumas vantagens, em permitir que as partes afetadas
solicitem ao Conselho de Curadores que este reconsidere alguma decisão
específica. Afinal, o pedido de reconsideração poderá se referir diretamente
ao argumento para a decisão articulada pelo Conselho de Curadores, e com
certeza é possível que uma segunda análise produza uma decisão diferente.
O processo do Ombudsman
pode facilitar um acompanhamento e resolução mais rápidos no caso de pedidos
de reconsideração evidentemente
frívolos. Inversamente, um Ombudsman poderia solicitar a paralisação de
outras atividades relevantes para algum pedido de reconsideração válido,
quando a continuidade dessas atividades poderia causar danos sérios ou
irreparáveis, caso o pedido fosse sustentado.
Não existe nenhuma
justificativa, no entanto, nem necessidade para qualquer processo que permita
que alguma outra entidade, como o incipiente Painel de Revisão Independente,
formado por pessoas que não são Curadores, atropele uma decisão do Conselho de Curadores. Não há qualquer garantia
de que esta entidade sempre agirá corretamente, e sempre existe a
possibilidade de que alguém reivindique uma revisão das decisões do IRP.
Obviamente, o Conselho de Curadores estará sujeito às limitações jurídicas
relevantes, mas além disso, para que ICANN funcione efetivamente deve haver
uma autoridade definida e final para as decisões. E esta deve ser o Conselho
de Curadores.
CONCLUSÃO
Por todos os motivos descritos acima, se permanecermos na atual
trajetória, é muito provável que o experimento da ICANN fracasse. Mas, se for
adequadamente reformulado, estou convicto de que poderá ter sucesso.
O processo da ICANN depende do trabalho de voluntários, e esses
voluntários são orientados por um objetivo - uma entidade eficiente do setor
privado para o desenvolvimento de políticas, que coordena um importante
recurso global. Caso se comprove que esta meta é inatingível, esses
voluntários perderão seu incentivo e desaparecerão. Os fundos são adequados
apenas para os esforços mais limitados, apesar da extraordinária dedicação da
equipe, e muitos assuntos importantes são adiados ou tratados
inadequadamente. Muitos criticaram a qualidade e a quantidade da produção da ICANN (às vezes, justificadamente, às vezes, injustamente), mas na verdade é
um milagre que não tenha havido desastres maiores. Muito se conquistou com
poucos recursos, mas há muito o que não foi feito ou adiado por falta de
pessoas que tratem de todos os problemas.
Existem muito assuntos difíceis e problemáticos que exigem atenção, além
dos descritos acima, incluindo práticas de verificação de dados, políticas
para transferência de nomes, e avaliação de novos TLDs. Essas práticas não
estão sendo realizadas, ou não estão sendo realizadas adequadamente, ou
dentro dos prazos, por que simplesmente não existem recursos humanos ou
financeiros suficientes para fazer tudo. Não temos os recursos para firmar os
acordos ideais com operadores de servidores raiz, e absorver os custos de
capital e operação dessas operações. Não poderia haver eleições Gerais sem um
grande aporte de fundos externos, porque não existem fundos internos para
esse empreendimento, e mesmo com fundos externos haveria um sério esgotamento
dos parcos recursos humanos da ICANN. Muitos daqueles que estão mais
comprometidos com uma abordagem do
setor privado e internacional passaram a estar cada vez menos envolvidos - ou
apresentam fortes indícios de estarem reduzindo seu envolvimento -, à medida
em que percebem que os avanços estão sendo cada vez mais estrangulados pelos
meandros do processo.
Conforme a falta de uma meta viável e compensadora se tornar mais
evidente, as pessoas simplesmente irão parar de tentar, e o experimento da ICANN
sofrerá um colapso. Não haverá mais incentivos para novas fontes de energia,
já que não haverá acesso a elas. Ressalte-se que os governos em todo o mundo
concluirão (como alguns já podem ter concluído) que o esforço do setor
privado fracassou, e portanto procurarão outra solução, dirigida com mais
rigor. E o setor privado, que tanto depende da operação estável desse recurso
essencial, irá engolir em seco e aceitar uma solução totalmente
governamental, se esta for a única solução disponível para garantir a
operação estável da Internet.
Por conseguinte, aqueles de nós que acreditam em uma solução
predominantemente privada precisam transformar ICANN em uma verdadeira
parceria entre o público e o privado, se quisermos que ela dê certo.
Precisamos fazê-lo, para conseguir associar a agilidade e força do
gerenciamento pelo setor privado com a capacidade dos governos representarem
o interesse público. Essa é uma mudança real na forma do conceito original da ICANN, mas não na essência de sua missão. Ela se baseia na realidade dos três
anos da nossa experiência. A ICANN original foi concebida por muitos como uma
experiência baseada na teoria e na esperança; a nova ICANN reformulada
precisa ser um mecanismo eficaz para a coordenação global, baseada em
abordagens práticas e exeqüíveis, fundamentada na experiência da vida real.
Anexada a este relatório está a minha sugestão de como ICANN poderia ser
reformulada para se formar uma parceria efetiva entre os setores público e
privado, capaz de desempenhar suas responsabilidades de coordenação global.
Aguardo com expectativa o diálogo que, espero, ela irá gerar.
M. Stuart Lynn
UMA PROPOSTA DE REFORMA PARA
ICANN
O texto a seguir resume como ICANN poderia ser reformada para ser uma
entidade eficaz de coordenação global e atingir os objetivos legítimos de
transparência e confiabilidade. Esse esboço pressupõe que as reformas
necessárias exigem mais de uma parceria pública-privada do que estava
previsto originalmente, três anos atrás, que a confiabilidade pública precisa
ser garantida de modo mais prático do que na atual estrutura, e que há
necessidade de uma base de financiamento mais ampla e mais forte do que a que
existe no momento.
Essa descrição estabelece uma abordagem para solucionar estes problemas e
transformar ICANN em uma entidade mais eficiente, mais efetiva, mantendo ao
mesmo tempo a cooperação apropriada do público e sua confiabilidade. O
propósito é iniciar um diálogo entre a comunidade da ICANN sobre as mudanças
exigidas caso se espere que ICANN cumpra sua missão. Ela é apresentada com a
advertência de que não temos tempo para um debate demorado; em minha opinião,
ou ICANN será reformada ou se tornará irrelevante nos próximos meses.
I. ESTRUTURA
A. Conselho de Curadores
com 15 membros
1. Dez Curadores At Large
(Gerais)
a. Cinco (um de cada
região geográfica da ICANN) indicados por governos (processo a ser
determinado) e confirmados pelo Conselho de Curadores.
b. Cinco nomeados por um
processo de indicação aberto e confirmados pelo Conselho de Curadores.
(i) Comitê de Indicação
composto por : (a) um presidente não-votante, indicado pelo CEO da ICANN após
ampla consulta; (b) três Curadores cujos mandatos não estejam expirando; e
(c) quatro outras pessoas selecionadas pelo Conselho de Curadores, após ampla
consulta.
(ii) Processo de
indicações aberto a todas as sugestões e contribuições, amplamente divulgado,
com tempo suficiente para fazer um trabalho cuidadoso. O Comitê de Indicação
consultaria uma grande parcela da comunidade da ICANN quanto a contribuições
às suas deliberações.
(iii) Para assegurar
comunicações abertas e cooperação significativa de todos os principais
interessados, haverá pelo menos os seguintes contatos não-votantes no Comitê
de Indicação: delegados ou representantes de IAB, de registros de endereços
IP, de registros e registradores de nomes de domínio, de operadores de servidores de nomes-raiz
e o presidente imediatamente anterior do Comitê de Indicação.
(iv) O Comitê de
Indicação fará indicações para cada cargo baseadas em critérios
bem-definidos, claramente estabelecidos com antecedência: qualidade
profissional extraordinária, compreensão técnica, atividades de liderança
documentadas, reputação de bom julgamento, registro de serviço público,
independência e disposição de dedicar tempo e esforços; tudo isso levando em
conta a diversidade geográfica e a experiência diferenciada.
(v) Ao fazer indicações
para um determinado Conselho, o Comitê de Indicação fará uma ampla consulta
às comunidades mais afetadas. Por exemplo, ao fazer indicações para Grupo de
Liderança para Atribuição de Endereços e Números, o Comitê de Indicação fará
consultas ao IAB, conselhos e membros dos RIRs, e ISPs.
2. Cinco Curadores Ex
Officio
a. CEO
b. Presidentes (ou
delegados) dos Conselhos de Política (Conselho de Política para Atribuição de
Endereços e Números, Conselho de Política para Nomes de TLDs Genéricos,
Conselho de Política para Nomes de TLDs Geográficos) e o Comitê Consultivo
para Assuntos Técnicos.
3. O delegado da Diretoria
de Arquitetura da Internet e o presidente do Comitê Consultivo para Assuntos
Governamentais atuam como contatos não-votantes no Conselho de Curadores.
4. Todos os curadores
(exceto membros ex officio) servirão por mandatos escalonados de três
anos, podendo servir no máximo por dois mandatos.
B. Três Conselhos de
Política e dois Comitês Consultivos Permanentes
[Os Conselhos de Política
seriam responsáveis pela discussão e elaboração de propostas referentes à sua
área de competência. Cada Conselho teria um Grupo de Direção, mas estaria
aberto e encorajaria a participação dos interessados, diretamente e através
de fóruns organizados (ver D abaixo). Os Comitês Consultivos dariam
assessoria ao Conselho de Curadores, a partir de sua perspectiva particular.
Os Conselhos de Política e Comitês Consultivos teriam um quadro de pessoal
exclusivo e acesso aos recursos da ICANN necessários para que funcionem
efetivamente. Além de publicadas no site da ICANN, as recomendações do
Conselho seriam comunicadas a cada um dos outros Comitês de Política, aos
Comitês Consultivos para Assuntos Técnicos e Governamentais, ao Comitê de
Segurança e ao Ombudsman (que seria responsável por solicitar, receber e
organizar comentários públicos relativos a cada uma dessas recomendações),
que as analisariam e comentariam antes da decisão do Conselho de Curadores.
Recomendações dos Conselhos teriam grande peso diante do Conselho de
Curadores, e este precisaria explicar todas as decisões de não aceitar a
recomendação de um Conselho, mas o Conselho de Curadores teria a autoridade
para aceitar ou rejeitar toda ou parte de uma recomendação, com a devida
explicação.]
1. Conselho de Política
para Atribuição de Endereços e Números (ANPC)
a. Aberto a organizações
que utilizam ICANN para realizar a atribuição de números de protocolo e/ou
alocação de endereços IP, e outras organizações interessadas em assuntos
relativos a estes.
b. Administrado pelo
Grupo de Direção, composto por sete membros indicados pelo Conselho de
Curadores - quatro ex officio - [delegado do presidente da IETF e
delegados de RIRs que têm acordos formais com ICANN], e três outras pessoas
indicadas através do processo NomCom e confirmadas pelo Conselho de
Curadores. Depois do reconhecimento de um novo RIR, ele seria autorizado a
indicar um membro ex officio do Grupo de Direção, que aumentará de
tamanho para acomodar este acréscimo. Em qualquer momento em que o Grupo de
Direção for constituído de um número par de pessoas, o presidente votará
apenas para desempate.
c. Considerar mecanismos
de financiamento para aqueles participantes dos Conselhos (exceto IETF) que
não possuem acordos com ICANN, talvez proporcionais ao tamanho e capacidade
de pagamento.
d. Presidente eleito pelo
Grupo de Direção, com assento ex officio junto ao Conselho de
Curadores.
[Essencialmente, o ANPC
combinaria as funções das atuais PSO e ASO em uma única entidade, com o
devido apoio de pessoal e um único grupo de Direção. O ANPC seria responsável
por assessorar o Conselho de Curadores na área bastante limitada das questões
políticas relativas à alocação de endereços IP, e todas as políticas ou
problemas operacionais decorrentes do fato da ICANN desempenhar as funções IANA de atribuição de números de
protocolo.]
2. Conselho de Políticas
para Nomes de TLDs Genéricos (GNPC)
a. Formado por
organizações interessadas em políticas para nomes relativos a gTLDs.
b. Administrado por um
Grupo de Direção constituído de onze membros indicados pelo Conselho de
Curadores - seis membros ex officio [um representante de registros de
gTLDs e um representante dos registradores de gTLDs (cada um dos quais
escolhido pelas respectivas entidades que possuírem acordos com ICANN); um
representante de grandes usuários comerciais, um representante de pequenos
usuários comerciais; um representante de usuários não-comerciais, e um representante de usuários individuais
(cada um escolhido por aquelas entidades em cada categoria que participam
plenamente do Conselho de Política ou do processo do NomCom), e cinco outras
pessoas indicadas através do processo NomCom e confirmadas pelo Conselho de Curadores).
c. Considerar mecanismos
de financiamento para aqueles participantes do Conselho que não têm contratos
com ICANN, talvez proporcionais ao tamanho e capacidade de pagamento.
Analisar se representantes ex officio de usuários devem ser escolhidos
entre aqueles que participam do financiamento da ICANN.
d. Presidente eleito pelo
Grupo de Direção, com assento ex officio junto ao Conselho de
Curadores da ICANN.
[O GNPC substituiria a
atual DNSO, mais uma vez com a equipe apropriada e com um Grupo de Direção em
parte constituído de interessados, e em parte por pessoas selecionadas pelo Conselho de Curadores.]
3. Conselho de Política
para Nomes de TLDs Geográficos (ccNPC)
a. Formado por
organizações de ccTLDs e outras organizações interessadas em assuntos políticos
relativos a este tópico.
b. Administrado por um
Grupo de Direção de nove membros indicados pelo Conselho de Curadores - cinco
membros ex officio [um representante de registros de ccTLDs de cada
região da ICANN, escolhido entre aqueles que possuem contratos com ICANN], e
quatro outras pessoas indicadas pelo processo NomCom e confirmadas pelo
Conselho de Curadores.
c. Considerar mecanismos
de financiamento para aqueles participantes que não têm contratos com ICANN,
talvez proporcionais ao tamanho e capacidade de pagamento.
d. Presidente eleito pelo
Grupo de Direção, com assento ex officio junto ao Conselho de
Curadores da ICANN.
[O ccNPC seria uma nova
entidade, criada para oferecer tanto assessoria política ao Conselho de
Curadores, quando necessário, quanto para atuar como um corpo consultivo para
serviço e políticas junto aos 243 ccTLDs. Ele teria o apoio adequado de
pessoal, um Grupo de Direção composto por representantes de ccTLDs e outras
pessoas com conhecimento ou experiência relevante que pudessem contribuir com
esses objetivos.]
4. Comitê Consultivo para
Assuntos Governamentais
a. Formado por
representantes de governos nacionais, organizações multinacionais criadas
através de tratados e economias distintas, que contribuem com o financiamento da ICANN.
b. Mecanismos de
financiamento criados para reconhecer o tamanho e capacidade de pagamento, mas apenas aqueles que
contribuem com ICANN (mais países em desenvolvimento cuja contribuição é
dispensada por incapacidade de pagamento) poderiam ser participantes com
pleno direito a voto; não-contribuintes teriam status de observadores.
c. Responsável por
oferecer assessoria ao Conselho da ICANN em relação a questões
governamentais; colaboração prestada através da participação do presidente
junto ao Conselho de Curadores da ICANN e através do Relatório Anual do GAC
ao Conselho da ICANN, definindo áreas ou assuntos que segundo seu parecer
exigem atenção prioritária da ICANN.
d. Presidente eleito por
membros votantes, com assento ex officio junto ao Conselho de
Curadores da ICANN.
[O GAC poderia continuar
sendo um fórum para os governos discutirem as questões políticas do DNS, mas
deve ter o devido apoio de pessoal, e uma membresia completa poderia exigir
uma contribuição de fundos de acordo com algum esquema (requerendo uma
contribuição menor ou nula das nações menos desenvolvidas). O presidente do
GAC atuaria como um contato ex officio junto ao Conselho de Curadores da ICANN.]
5. Comitê Consultivo para
Assuntos Técnicos (TAC)
a. Composto por
indivíduos com experiência direta ou responsabilidade por questões técnicas
relativas às atividades da ICANN.
b. O Comitê consistiria
de sete membros, sendo quatro ex officio [um delegado da IAB, um
delegado dos RIRs, um delegado dos operadores de servidores de nomes-raiz e
um delegado pelos registros/registradores de nomes de domínio] e três outras
pessoas selecionadas através do processo NomCom (que poderiam ser representantes de vários outros
grupos, como ETSI, ITU, W3C, etc).
c. O TAC iria assessorar
o Conselho de Curadores da ICANN e sua equipe nos assuntos técnicos e
operacionais relativos às atividades da ICANN. Diferentemente dos Conselhos
de Política, o papel do TAC seria meramente consultivo, sem a obrigação de
desenvolver políticas globais. Ele prestaria assessoria técnica e operacional
quando solicitado, mas não estaria encarregado de elaborar políticas por sua
própria iniciativa.
d. Presidente eleito pelo
Comitê, com mandato ex officio junto ao Conselho de Curadores da ICANN.
[O TAC assessorará o
Conselho e a equipe da ICANN nos aspectos técnicos das responsabilidades
operacionais da ICANN. Por exemplo, o TAC seria a entidade para prestar
consultoria no teste do uso de endereços compartilhados para os servidores de
nomes-raiz, ou para testar a capacidade de criar TLDs internacionalizados no
arquivo de zona-raiz.]
C. Comitê de Segurança
1. Formado por não mais de
20 pessoas indicadas pelo Conselho de Curadores, com a devida experiência e
conhecimento, incluindo um participante ex officio do GAC.
2. Presidente inicial
indicado pelo Conselho de Curadores, presidentes subseqüentes eleitos pelos
membros.
3. Responsável por
coordenar as atividades da ICANN relativas a todos os aspectos de segurança
dos sistemas de alocação de nomes,
números e endereços na Internet.
D. Comitê para Operações
de Servidores de Nomes-Raiz
1. Continuação do atual
Comitê Consultivo para o Sistema de Servidor-Raiz, constituído de um operador
de cada servidor de nomes-raiz, mais especialistas convidados pelo Comitê.
2. Presidente indicado pelo
Conselho de Curadores. Presidente (ou seu delegado) com assento ex officio
no Comitê Consultivo para Assuntos Técnicos e no Comitê de Segurança.
3. Responsável por
coordenar as atividades da ICANN relativas à operação, funcionamento e
evolução do sistema de servidores de nomes-raiz do DNS.
E. Fóruns
[Para ajudar a gerar a
participação, facilitar deliberações significativas e estruturar as
colaborações, eu proponho uma reformulação do atual conceito de eleitorado ou
grupo constituinte. Os grupos constituintes da DNSO atualmente existentes
seriam convidados a continuar como fóruns auto-organizados atuantes entre os
Conselhos da ICANN. Os fóruns poderiam participar em cada um dos Conselhos,
oferecendo cooperação, desenvolvendo e avaliando propostas, e defendendo as
posições de seus membros, quando for conveniente. Por exemplo, o Fórum ISP
seria um canal para que seus membros participem e cooperem nos assuntos relativos a políticas para gTLDs,
ccTLDs, e endereços, e seriam um canal de participação no Comitê de
Indicação. Teoricamente, os fóruns iriam manter-se afastados de debates sobre
procedimentos e envolver-se em deliberações sobre assuntos políticos
importantes do DNS. Tal como é o caso no momento, alguns fóruns por definição
estariam limitados a membros definidos pela existência de um relacionamento
contratual com ICANN (p. ex., os registros de gTLDs, registros de ccTLDs e
registradores de gTLDs), ao passo que outros seriam mais abertos e definidos
por função (p. ex., os ISPs, grupos constituintes de empresas, não-comerciais
e para propriedade intelectual).
Igualmente seria possível criar novos fóruns. Por exemplo, uma
organização At Large (Geral) baseada
em entidades regionais, como propôs o Comitê de Estudos para Membresia Geral,
poderia ser organizada para indivíduos. Ao eliminar o atual conceito de uma
representação matematicamente eqüitativa para cada grupo constituinte junto
ao Conselho de Nomes da DNSO, ICANN poderia desenvolver e implementar com
mais rapidez os critérios mínimos bem definidos para o reconhecimento de
novos fóruns auto-organizados (por exemplo, podemos imaginar fóruns para
redes universitárias e acadêmicas, indivíduos, usuários de pequenas empresas,
provedores de backbone, etc.) sem encontrar resistência entre os
fóruns já existentes , em razão de uma temida diluição de influência. Isso
reduziria significativamente as barreiras à participação em discussões e
deliberações políticas por grupos com interesses e objetivos em comum.]
II. FINANCIAMENTO
[Essa estrutura tem como objetivo ampliar e regularizar a estrutura de
fundos da ICANN. Ela distingue entre financiamento básico - fundos para as
tarefas que são parte integrante da missão de ICANN e beneficiam a comunidade global de usuários da Internet
de modo geral - e fundos baseados em taxas - reembolsos pelos custos
integralmente alocados, referentes à prestação de vários serviços a entidades
que não participam do processo de financiamento básico. O financiamento
poderia ser reunido em acordos (de modo que entidades com as quais ICANN tivesse
um contrato pagariam uma quantia anual única para cobrir tanto os custos
básicos quanto as exigências de serviço) ou poderia ser coletado de várias
formas entre as entidades que não têm contratos com ICANN. Por exemplo, visto
que seria contraditório com a missão da ICANN recusar serviços de IANA ou
outros serviços necessários, estes ccTLDs que escolhessem não firmar acordos
com ICANN pagariam uma taxa de serviço por IANA e outros serviços que
utilizarem, o que inclui uma alocação por custos indiretos e uma parcela das
exigências de fundos básicos. Além disso, deve-se considerar a criação de
alguma forma de taxa de participação para aquelas entidades que não têm
contratos com ICANN, mas participam plenamente no processo de desenvolvimento
de políticas dessas entidades (p. ex., grandes usuários comerciais, etc.).]
A. Necessidades de
fundos: As necessidades de fundos estão divididas em duas partes:
1. Necessidades básicas:
abrangem custos de ?bens públicos?, incluindo o financiamento dos operadores
de servidores de nomes-raiz em base contratual, e todos os custos indiretos
associados. Isso inclui fundos para :
·
Gerenciamento e
administração
·
Cargo de Ombudsman
· |